Filmes de Plástico
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Análise: Filme 'Temporada' apresenta visão carinhosa da vida comum

Direção de André Novais Oliveira faz com que nos tornemos íntimos do que se passa na história protagonizada por Grace Passô

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2019 | 03h00

Depois de vencer o Festival de Brasília de 2018, Temporada, de André Novais Oliveira, estreia hoje em circuito. O título é tão low profile quanto o diretor. Mas se engana quem julga pelas aparências. Temporada, de fato, fala apenas do trecho de vida de uma personagem. Mas encerra um mundo em si. Novais, da cidade de Contagem, na Grande Belo Horizonte, não é de falar muito. Mas deixa que seu cinema diga o que tem a dizer. E como tem. 

A história é a de Juliana (Grace Passô), que se muda de Itaúna para Contagem e acaba arrumando emprego no combate às endemias. Em síntese, caça mosquito da dengue. Juliana deixa para trás o que intuímos ser um passado de problemas. Conhece outras pessoas, como seus colegas de trabalho, Hélio (Hélio Ricardo) e o hilário Russão (Russo Apr). 

A câmera acompanha esses personagens com toda a naturalidade. Vale dizer: com espontaneidade, como se nada estivesse previsto de antemão e a trama fosse se desenrolando diante de nós de maneira tranquila e inesperada, como um riozinho que flui. Como os rios, a história não avança em linha reta. Vai fazendo suas voltas e curvas, suas digressões. 

Tudo se expressa de forma natural também na paisagem e nos cenários, nos despojados interiores das casas, como se nada tivesse sido preparado ou mesmo alterado para servir de locação para um filme. Por exemplo, Juliana conversa com Hélio à beira de uma espécie de lago. Não se trata de uma paisagem “cinematográfica”. É apenas um laguinho sujo, no qual deságuam esgotos, como na maioria das cidades brasileiras. E, no entanto, é diante dessa “paisagem” nada romântica que os personagens travam um diálogo importante, significativo para a história. 

Tudo é despojado também na maneira como as pessoas falam, como se vestem, como andam e onde moram. Temporada é uma visão carinhosa sobre essa parte da sociedade brasileira que sobrevive no dia a dia, sem qualquer luxo, sem qualquer ilusão de sorte grande, mas que enfrenta o destino com muita garra, alegria – e, sim, muito afeto. 

Pois esse talvez seja um traço importante dos filmes de Novais – a relação de afeto entre os personagens. Não esse afeto meloso, de taxas glicêmicas perigosas, tão caro ao cinemão comercial. Há nele economia e contenção, no mais puro espírito mineiro, que esconde e oculta para melhor mostrar.

Por outro lado, o caráter alusivo da narrativa, com seus espaços de reflexão, com seus planos abertos e tranquilos, contribui para que nos tornemos íntimos do que se passa na história. Fazemos nossos os dramas e as alegrias dos personagens desse exercício de emoção inteligente.

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