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Análise: 'Mulher Maravilha' é primeiro acerto do estúdio depois de 'Batman' e 'Superman' apáticos

Enquanto outros heróis lutam entre si para resolver de uma vez por todas qual método de fazer o bem está mais correto, heroína luta por uma humanidade perdida

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2017 | 15h21

Batman e Superman suaram, trocaram sopapos, lutaram lado a lado e ainda assim deixaram um vazio. Pouco importava quem sairia vencedor. Batman vs Superman: A Origem da Justiça, uma superprodução dirigida por Zack Snyder e lançada no ano passado, sofria do mais vital dos detalhes, a falta de empatia. Nenhum dos heróis, dois terços da tríade mais famosa do elenco de personagens da editora de quadrinhos DC Comics, era capaz de se conectar com quem assistia, do lado de cá da tela. O visual dark era estonteante, suas convicções bastante compreensíveis, nada porém passava disso. Eram dois brutamontes em uma rixa abestada contornada pela coincidência de que ambos têm mães chamadas Martha. A breve exceção diante de tanta assepsia surgiu na breve aparição da Mulher Maravilha, a Diana Prince, interpretada por Gal Gadot. 

São poucos minutos de tela e a personagem, ainda de identidade misteriosa, toma o filme para si. Na batalha final, ao som da guitarra musculosa que acompanha suas ações, vibra-se com ela. Diferentemente dos outros dois, a Mulher Maravilha não tem sua origem revelada ali. Sua presença é um grande presente para os fãs da heroína nos quadrinhos e uma tentativa de alavancar alguns milhares de dólares a mais na bilheteria por anunciar a presença da tríade completa no longa.

Preparava-se o terreno para a estreia solo da Mulher Maravilha, enfim nos cinemas a partir desta quinta-feira, 1, dirigida por Patty Jenkins, uma cineasta dona de notável habilidade para colocar uma personagem feminina em primeiro plano, como o fez no filme Monster: Desejo Assassino (2003) e na série The Killing (2011). A questão, para a diretora, era encontrar o tom. Flertar com o humor que a concorrente dos quadrinhos, a Marvel, tem criado nos cinemas e tornar a Mulher Maravilha um sucesso de bilheterias tão grande quanto os outros heróis poderosos da editora.

 

Mulher Maravilha, o filme, tem potencial para isso. Esbanja humor e não se furta nos exageros das cenas de ação. Até mesmo as toneladas de computação gráfica para recriar o período da Primeira Guerra Mundial, quando a história se passa, é facilmente superável. Principalmente, cria a tal empatia. É fácil se relacionar com a heroína isolada do mundo, o nosso, em uma ilha paradisíaca povoada apenas por mulheres, as amazonas. Seu desencanto com a Londres (e a Europa) da época transcende a tela, sua esperança inocente, quase infantil, diante de um mundo tão cinza e cruel, é perfurante. 

Em entrevista ao Estado, Gadot prometeu que Mulher Maravilha seria centrado em sentimentos fundamentais. O amor, acima de todos os outros, seria o protagonista aqui. Não o amor do romance, mas o sentimento em sua forma mais generosa, da entrega. 

E Mulher Maravilha, a personagem, entra na história da humanidade no momento do descolamento. Quando se descobriu como matar a distância, com armas de fogo, sem necessariamente ver o rosto daquele de quem se tirou a vida. E foram 9 milhões de mortos, entre 1914 e 1918. Morreram em bombardeios e tiroteios. Quantos se foram sem sequer saber de qual espingarda ou metralhadora havia saído o disparo? 

A vida humana passou a valer o preço de um cartucho de munição. "Você não tem honra", questiona a Mulher Maravilha a um soldado bom de tiro. Guerreira à moda antiga, ela parte para a luta no mano a mano. Luta pela honra. Luta pelo amor. Luta por conceitos que a própria humanidade, mergulhada em quatro anos de uma guerra selvagem espalhada pelo continente europeu, decidiu esquecer. É a líder de um quinteto de soldados a enfrentar um exército alemão, na tentativa de interromper aquela que na época foi conhecida como A Guerra de Todas Guerras. 

Enquanto Batman e Superman lutam entre si, para resolver de uma vez por todas qual método de fazer o bem está mais correto, Mulher Maravilha luta por nós, por uma humanidade perdida. O filme prova que o problema de Batman Vs Superman nunca foi a história rocambólica de rivalidade entre os heróis e sua resolução simplória. Faltava um pouquinho de amor. Uma dose de conexão, compaixão.  A Mulher Maravilha abre mão do que tinha e de quem era por um bem maior. É o tal amor cristalino, brilhante sem ruídos e interferências. Ao fazê-lo, a heroína sente, sofre e também saí quebrada. Emociona, enfim.

 

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