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Análise: filme ‘Curumim’ vai da euforia das drogas à morte na Indonésia

Longa é duro, necessário, obra de advertência, porém também de compaixão

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2016 | 06h00

Curumim, documentário de Marcos Prado (o mesmo de Estamira), é a história de Marco Archer, preso e executado na Indonésia por tráfico de drogas. Curumim era seu apelido.

O documentário é impressionante e não tem até agora obtido a repercussão merecida, talvez por causa do seu tema e personagem. Deve-se dizer que o diretor, se toma partido de Archer, o faz apenas para denunciar a barbárie da pena capital, o assassinato cometido pelo Estado e sancionado pela Justiça. Em nenhum momento, pretende endeusar o personagem nem desculpá-lo por seus erros e crimes. Aliás, o próprio Archer confessa no filme que havia errado feio e apenas pedia oportunidade de se redimir. Chance que não lhe foi dada, afinal, sendo executado por um pelotão de fuzilamento, em 2015. Dilma Rousseff, então presidente, fez gestões para que a pena capital fosse comutada. Em vão.

O filme retraça a trajetória de alguém que destruiu a própria vida. Originário de uma classe social privilegiada, foi o típico playboy carioca, adepto da praia e de esportes radicais. Bem relacionado, falante, de boa aparência, teve um acidente quase fatal com um parapente. Quando o dinheiro começou a faltar, as drogas que já consumia lhe pareceram meio fácil para consegui-lo. Vendia aos amigos e, segundo um dos depoentes, até nos Estados Unidos meteu-se no tráfico, a serviço do cartel de Pablo Escobar. Não era exatamente um amador, embora se dissesse um pequeno traficante.

Quanto mais arriscada a jogada, mais rentável ela é. A ponto de Archer tentar passar no Aeroporto de Jacarta com 13,5 quilos de cocaína nos tubos da armação de sua asa-delta. Sabia que, naquele país, a tolerância com as drogas é zero. Foi descoberto na alfândega, iludiu a polícia e conseguiu fugir do aeroporto pela porta da frente. Escondeu-se nas ilhas paradisíacas do país, mas foi capturado 16 dias depois. Julgado, foi condenado à morte. Entre recursos e adiamentos, esperou 11 anos até ser executado.

Que imagem fica de Marco, através do filme? Encerrado em sua cela, na companhia de terroristas islâmicos, assassinos e outro condenado por tráfico, o brasileiro procura manter o alto-astral. Brinca com todos e, nota-se, é o personagem mais popular da cadeia. Talvez como forma de combater a angústia da espera, expõe aquele lado extrovertido, o seu melhor perfil segundo depoimento de amigos. Alguns deles também dão a dica. Marco não cresceu. Acostumado a levar a vida na flauta, não sentiu a passagem dos anos. Com o tempo, “foi ficando para trás”, diz um deles. Mantinha-se ainda popular, porque era quem fornecia a droga para a turma. Tinha dinheiro para bancar a festa permanente em que transformara sua vida.

Esperto, malandro, bon vivant. Mas isso não dura para sempre. O acidente com o parapente o marcou. Acabou com sua dentição. Os anos começaram a pesar. E uma última grande tacada lhe parecia a salvação da lavoura para levantar uma grana alta e se aposentar. Daí a operação Jacarta, que lhe custou a vida e, antes disso, 11 anos de cárcere e a angústia da espera.

Marcos Prado conheceu Archer em Bali. Tornaram-se amigos. A relação, em parte, explica a espontaneidade de depoimento do prisioneiro. Falava para alguém de confiança. Mas essa é apenas metade da questão. A outra é a seguinte: Marco falava para tentar salvar a vida. A filmagem é como a boia de salvação lançada em meio a um mar bravio e sem terra à vista. Apesar de todas as gestões diplomáticas, sua sorte parecia selada, pois 70% da população da Indonésia apoia a pena capital para traficantes. O presidente Joko Widodo elegeu-se com essa plataforma implacável. O filme seria a última cartada de Archer. Também não funcionou.

Curumim é duro, necessário, obra de advertência, porém também de compaixão.

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