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Análise: Filme 'Clash' apresenta uma situação específica, mas com valor de advertência universal

Clash busca um ponto de vista para interpretar o dia 3 de julho de 2013, marcado por uma virtual guerra civil na cidade do Cairo

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2017 | 05h00

Clash busca um ponto de vista para interpretar o dia 3 de julho de 2013, marcado por uma virtual guerra civil na cidade do Cairo. O presidente Mohamed Morsi, membro da Irmandade Muçulmana, eleito havia um ano, foi derrubado pelo exército depois de uma manifestação popular contra o governo. O ponto de vista concentrado é uma estratégia do diretor Mohamed Diab: quase tudo é visto a partir do interior de um camburão, no qual são encerrados manifestantes de diferentes tendências. Cria, assim, não apenas um microcosmo da sociedade egípcia como um espaço limitado de observação para olhar o país como um todo. Dessa forma, há o ambiente interno, com tendências, ideias, e mesmo gêneros em confronto ou eventual conciliação. E há o espaço externo, do qual só se veem partes, através das pequenas janelas do veículo e das grades que impedem a fuga de quem está no interior. 

Esse espaço limitado de observação às vezes é um trunfo. Permite ver com mais clareza, como quem olha uma pintura através de um orifício feito com os dedos da mão para observar melhor um detalhe do quadro. No interior desse quadro estão partidários da Irmandade, outros que defendem os militares no poder, cristãos, homens, mulheres e adolescentes, além de dois jornalistas que cobrem a manifestação e são considerados espiões do Ocidente. A tensão sobe à medida em que mais pessoas vão sendo detidas e enfiadas no furgão. Há calor, falta ar, não há água nem banheiro. O tempo passa, nada se resolve, e, pelas janelas vê-se o caos que toma conta das ruas. Enquanto isso, a polícia não sabe o que fazer com os presos enquanto se defende de ataques da população. 

Esse ponto de observação, portanto, nada tem de sereno. Ou reflexivo. Busca um retrato a quente de uma situação política insustentável e das consequências desta sobre a população. Em especial sobre parte da população que não ficou em suas casas, mas preferiu sair às ruas para se manifestar ou lutar. Como é o caso de uma garota que convenceu o pai idoso de que precisavam tomar partido. Ou de uma família inteira, pai, mãe e filho, que é presa e tenta sobreviver no interior do furgão. 

Esse microcosmo faz uso inteligente de uma situação forçada. Na vida social comum, em geral, buscamos aqueles que pensam como nós, ou, pelo menos, de maneira aproximada. Na situação imaginada por Diab, pessoas de pensamentos opostos e que, dada a radicalização social, se odeiam, são obrigadas a conviver num espaço exíguo. Claro que se trata de uma situação plausível, que pode muito bem acontecer de verdade durante uma convulsão social. Mas também é uma poderosa metáfora. Existe um espaço social comum que, apesar de muito mais amplo que o interior de um camburão de polícia, é o único que as pessoas dispõem para levar suas existências. O excesso de polarização pode tornar esse ambiente tóxico e, literalmente, inabitável. Dessa forma, o filme é não apenas diagnóstico de impasses, mas crítica de uma situação de intolerância social que pode levar à autodestruição. 

Clash fala de um país específico, o Egito, e de um acontecimento histórico muito particular, mas que tem a ver com algo universal e que se expressa de maneira e graus diferentes em todo o mundo. Diz respeito à perda progressiva da capacidade de convivência com o diferente. E de como isso pode ser mortal para pessoas e nações. 

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