EFE/EPA/ETIENNE LAURENT
EFE/EPA/ETIENNE LAURENT

Análise: Escolhas inexplicáveis no Globo de Ouro

'Destacamento Blood' e 'I May Destroy You' foram ignorados, enquanto Regina King é uma das cinco melhores diretoras do ano, mas seu filme fica de fora

Mariane Morisawa, Especial para o Estado

03 de fevereiro de 2021 | 16h40

Vamos começar com a boa notícia: pela primeira vez, a Associação de Jornalistas Estrangeiros de Hollywood indicou três mulheres ao Globo de Ouro de direção: Chloe Zhao por Nomadland, Emerald Fennell por Bela Vingança e Regina King por Uma Noite em Miami. Mas a verdade é que a seleção de concorrentes à premiação, que acontece dia 28 de fevereiro em Nova York e Los Angeles, teve momentos extras de ué.

A começar pela própria Regina King, indicada como diretora sem que seu filme esteja entre os candidatos a melhor drama. Ninguém vai reclamar de ter Regina King, até porque Uma Noite em Miami é um belo filme. Mas que é estranho, é, ainda mais porque são dez candidatos a melhor filme garantidos, por causa da divisão em drama e comédia ou musical.



É bem esquisito que num ano com tantos longas-metragens com elencos formados por pessoas negras, eles tenham sido majoritariamente esnobados. Destacamento Blood, de Spike Lee, foi ignorado. Outros conseguiram migalhas entre os atores, seja Viola Davis e Chadwick Boseman por A Voz Suprema do Blues, Daniel Kaluuya por Judas e o Messias Negro, Andra Day por Estados Unidos vs Billie Holliday e Leslie Odom Jr. por Uma Noite em Miami. Odom Jr. também concorre pela canção Speak Now, do mesmo longa. Ele poderia ter sido indicado uma terceira vez, mas a HFPA (sigla em inglês da associação), que decidiu considerar o registro da peça Hamilton como um filme, preferiu Lin-Manuel Miranda como ator de comédia ou musical em vez de Odom Jr., que bateu o colega no Tony.

Em televisão, a HFPA costuma ser mais ousada em suas escolhas, reconhecendo novas séries e talentos de forma mais rápida que o Emmy. Mas a seleção deixou de fora alguns dos grandes destaques de 2020, em especial I May Destroy You, de Michaela Coel, que esteve em dez entre dez listas de melhores do ano.

Claro, houve boas surpresas como o francês de origem argelina Tahar Rahim como ator dramático por The Mauritanian. Olivia Colman sempre merece e tê-la em duas categorias (atriz de série dramática por The Crown e coadjuvante pelo filme Meu Pai) é chance dobrada de ouvir mais um daqueles seus discursos maravilhosos. A mesma coisa com Sacha Baron Cohen, outro forte orador, que concorre a três prêmios.


 


Só que quem explica James Corden por A Festa de Formatura? O filme em si já é duro de engolir, mas, se alguém tinha de concorrer, que fosse Meryl Streep (que saiu de mãos abanando) ou mesmo Nicole Kidman (indicada pela minissérie The Undoing). Obviamente Ryan Murphy tem poder entre os membros da HFPA, já que não só A Festa de Formatura, como Hollywood (Jim Parsons como ator coadjuvante) e Ratched (melhor série dramática, atriz para Sarah Paulson e atriz coadjuvante para Cynthia Nixon) ganharam indicações.

E de onde vieram Kate Hudson (Music, dirigido pela cantora Sia), Rosamund Pike (Eu Me Importo), Jared Leto (Os Pequenos Vestígios), filmes de zero repercussão? Por que indicar Glenn Close, uma grande atriz, por uma produção tão menor Era uma Vez um Sonho?

O Globo de Ouro tem fama de privilegiar astros e estrelas. E, óbvio, todo o mundo gosta de ter Nicole Kidman e Al Pacino na sua festa. Mas, devido à pandemia, a cerimônia não será como as outras, com elencos confraternizando em grandes mesas cheias de comida e champanhe. Por que não dar chance a caras novas, diversas e estar atento ao que está acontecendo lá fora e também no cinema e na televisão? É uma chance desperdiçada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.