Universal Pictures
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Análise: Em 'Trama Fantasma', o excesso de perfeição traz o risco da rigidez

Filme de Paul Thomas Anderson estreia na quinta-feira, 22

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2018 | 06h00

Trama Fantasma é o encontro de um perfeccionista com outro. Daniel Day-Lewis, famoso por sua imersão total nos personagens, interpreta o figurinista Reynolds Woodcock, que baseia sua arte na atenção aos mínimos detalhes de uma vestimenta – mesmo aqueles que não se percebem a olho nu. A direção é do não menos maníaco Paul Thomas Anderson, diretor capaz de repetir à exaustão uma única cena, até que ela lhe pareça próxima da impossível perfeição. 

O filme é, em certo sentido, um detalhamento dessa impossibilidade da perfeição num mundo imperfeito, habitado por seres limitados. É, ao mesmo tempo, elogio e delimitação do alcance desse tipo de busca, destinado ao fracasso, mas cuja tentativa pode produzir obras notáveis. 

Woodcock é o estilista que construiu sua “maison” famosa em companhia da irmã, Cyrill (Lesley Manville). Veste a realeza e a aristocracia britânica. É, ele próprio, assim como seus vestidos, suprassumo da elegância. E do rigor. Tudo se desloca um pouco quando conhece uma moça de temperamento forte, Alma (notável interpretação de Vicky Krieps).

Há um jogo interessante nessa escolha. Alma é uma figura improvável no estilo de vida de Woodcock. Acrescenta a ele um elemento de aspereza, uma certa rudeza que, em aparência, não casa com a personalidade do figurinista. Outras surpresas virão, à medida que, de maneira inesperada, ela se transforma em musa e modelo preferido do costureiro. 

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O desenrolar da trama, de certa forma, se baseia na introdução de dissonâncias em um acorde a princípio perfeito. Como se faz com uma roupa de grife, Paul Thomas Anderson capricha na costura pelo avesso. O projeto pede que tudo seja sutil, mesmo quando imperfeições começarem a aflorar. 

O preço a pagar em obra tão milimetricamente calculada como Trama Fantasma é uma certa frieza. A impressão – que não deve andar longe da realidade – é de ser pensada demais, contida em excesso, polida um pouco além da conta. Produz, às vezes, uma bem definida sensação de frieza, um certo distanciamento em relação à obra. 

Isso é um inconveniente ou algo pensado pelo próprio diretor, quer dizer, um efeito desejado e que colocaria uma outra camada a ser lida na obra? A saber, que os efeitos deletérios do excesso de formalismo podem levar a catástrofes pessoais, como já fora tema de outro filme sobre os bastidores da aristocracia britânica, Vestígios do Dia, de James Ivory, baseado no livro de Kazuo Ishiguro. 

Há essa ideia na linha de superfície do filme, a de que certa dose de imperfeição é necessária para avivar vidas impecáveis – e mortas. 

O espectador pode estranhar – e até se ressentir – dos meios empregados para expressar essa imperfeição e dar sentido a um relacionamento que parece às vezes condenado à morte em vida. É de um artificialismo que, na verdade, não destoa do conjunto do projeto de obra desenhado por Paul Thomas Anderson. Com seu formalismo visual, expressa aquilo que se propõe, o caráter engessado do excesso de perfeição. Esse conteúdo está em sua forma. E as dissonâncias surgem para que o projeto não se desfaça por excesso de rigidez. 

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