Ariela Bueno
Ariela Bueno

Análise: Em 'Mulheres Alteradas', a crise dos 30 anos é multiplicada por quatro ótimas atrizes

Longa, entretanto, não vai mais longe que outras comédias, brasileiras inclusive

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2018 | 06h00

Pense numa mulher moderna no cinema brasileiro contemporâneo, e seu emblema é Ingrid Guimarães. Os críticos discutem se suas comédias são televisivas, mas os que sobrarem talvez um dia descubram que retratam as aspirações de mulheres de classe média (e pequeno-burguesas) do começo do milênio. Mulheres Alteradas é outra coisa. Baseado na HQ da argentina Maitena, o diretor Luis Pinheiro selecionou, das muitas histórias e personagens possíveis, quatro mulheres na crise dos 30 anos. Quatro mulheres, três histórias cruzadas. Como se faz a mágica?

+++ 'Mulheres Alteradas' mostra o dia a dia feminino feito de sonhos e desilusões

Embora o projeto original não seja dele, mas da produtora Andrea Barata, Pinheiro e o roteirista Caco Galhardo não se preocuparam tanto em carregar no tom, exagerando, por exemplo, na caricatura como forma de captar a essência dos cartuns. Seria um equívoco, claro, e eles carregam mais nas cores e na cenografia. O filme lembra um pouco o Almodóvar da primeira fase, mulheres à beira. Pinheiro fica lisonjeado, a maioria da crítica talvez reclame. Pois que o faça.

Quatro mulheres. A executiva poderosa, Alessandra Negrini; suas assistente, Deborah Secco, insatisfeita no casamento que tenta salvar, e o marido empurra com a barriga para ver se ela desiste; Monica Iozzi, outra insatisfeita, mãe de dois filhos, que sonha com uma noite de solteira; e a irmã (Leandra, uma eterna adolescente vivida por Maria Casadevall), que vai ajudá-la a realizar seu sonho. Pinheiro diz que, ao abordar Maitena, buscou as questões atemporais, capazes de interessar a todas as mulheres. Por atemporais que sejam atendem a certos princípios - igualdade no mercado de trabalho, satisfação no sexo, divisão das tarefas, etc.

Pode ser que, no limite, Mulheres Alteradas não vá mais longe que outras comédias, brasileiras inclusive, mas as atrizes são ótimas, seus companheiros também, e o diretor revela uma preocupação com a linguagem que, essa sim, não é frequente nas demais comédias. Pinheiro cultiva um plano-sequência, e o diálogo das irmãs no carro é um tour de force dos mais apreciáveis. O organismo de Alessandra com Daniel Boaventura (Christian) quando ela, em êxtase, vai subindo... A atriz estava amarrada na câmera em grua. OK. Alessandra já disse que isso é repeteco para ela, que já fez esse tipo de experimento com... Júlio Bressane! O mais erudito dos autores brasileiros também é um dos mais criativos, e ousados, em termos de linguagem.

Mulheres Alteradas não aspira aos saltos números das comédias blockbusters, até porque não sai com tantas salas. O que não lhe falta é capacidade de observação nem inteligência. A briga pela espreguiçadeira, o coco - o coco! Prepare-se para dar boas risadas. 

 

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