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Análise: Em 'Fogo no Mar', a compaixão não é apenas uma palavra

Diretor Gianfranco Rosi lida com material humano muito rico e variado

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2016 | 03h00

Fogo no Mar, de Gianfranco Rosi, é um filme de “observação” sobre a Ilha de Lampedusa e seus habitantes. A palavra está entre aspas porque Rosi não mantém distanciamento frio em relação a seus personagens. Embora não seja algo explícito, óbvia é sua cumplicidade com os seres que vão compondo suas histórias - pescadores, homens do mar em geral, um médico, um radialista, um casal de aposentados, um garoto levado da breca, que passa a apresentar problemas de visão.

No entanto, como se sabe, Lampedusa não é uma ilha qualquer. Vive no noticiário e por motivos muito tristes. É em seu litoral que navegam aqueles barcos de refugiados, vindos da África, e que tentam penetrar no paraíso prometido da Europa. As águas tão belas de Lampedusa são cenário de tragédias dantescas. As mortes contam-se às centenas a cada acidente. E estes não param de acontecer. 

De modo que é para os refugiados que tudo converge neste pungente documentário. Uma nota: Rosi tem obtido êxito em festivais com seus filmes. Há três anos, ganhou Veneza com Sacro GRA, construído sobre pessoas simples que habitam ou circulam pelo grande anel rodoviário que circunda Roma. Agora, com Fogo no Mar, venceu Berlim. Quer dizer, dos três grandes festivais de cinema do mundo, já faturou dois. 

Não é habitual que documentários sejam tão bem-sucedidos. De modo geral, festivais prestigiam mais a ficção. Mas é verdade também que as fronteiras de gêneros estão caindo em desuso, embora preconceitos sejam resistentes. De todo modo, os documentários de Rosi têm uma particularidade. Embora registrem uma fatia de real, o fazem sem qualquer sentido didático explicativo e, em particular, jamais se colocam em posição superior em relação ao que retratam. 

Se fosse exigido definir esse filme com apenas um sentimento, este seria o da compaixão. Simpatia pelos exilados e pelos próprios habitantes da ilha. Há ali uma Itália ainda simples, não contaminada pelos anos cafajestes e consumistas de Berlusconi, composta por pessoas que podem ser solidárias e humanas. Capazes de perceber que se a vida é difícil para todos, para alguns pode ser dura de maneira extrema, próxima do indizível. Quem assiste ao filme, dificilmente esquece o depoimento de um médico sobre o tipo de ajuda que deve prestar aos que sobrevivem. E sobre os mortos, que é obrigado a remover e a classificar. Esses mortos anônimos, dos quais é preciso retirar um pedaço do corpo para tentar alguma identificação posterior. 

Rosi lida com material humano muito rico e variado. Trabalha no registro de um encontro entre civilizações muito diferentes. Mas, ao contrário do que apregoam os defensores de um irredutível choque de culturas, vê aqui a possibilidade de um encontro, apenas e tão somente por que trata da humana fragilidade e da solidariedade que é devida aos mais frágeis. Aos que se encontram na periferia do sistema e, por motivos variados, que vão da guerra à seca e à fome, mesmo dela foram expulsos. 

Em tempos de neoliberalismo, com seu elogio da competição como a forma naturalizada do comportamento humano, cabe à arte remar contra a maré e afirmar que há outros valores em jogo, que não os econômicos. E dizer que não precisa ser assim. Bravo, Rosi. 

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