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Análise: Em 'Cães Selvagens', Willem Dafoe rouba a cena e é 10

Longa é o melhor filme do diretor Paul Schrader em anos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2017 | 04h00

Ninguém discute o passado glorioso de Paul Schrader. Como roteirista, ele deu substancial contribuição ao cinema de Martin Scorsese, escrevendo seus melhores filmes, quando ele era realmente grande (ou o grande era Schrader?) nos anos 1970 e 80. Como diretor, Schrader também teve seus momentos - Hardcore, Gigolô Americano, Mishima - Uma Vida em Quatro Capítulos, etc. Seus trabalhos recentes, e o último - The Canyons, incursão pelo universo pornô - , foram decepcionantes. Mas eis que Schrader ressurge.

Cães Selvagens é seu melhor filme em anos. Integrou as seleções de Cannes - Quinzena dos Realizadores - e Toronto no ano passado. Apresenta curiosas similaridades com T2 Trainspotting, atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros. Na abertura do longa de Danny Boyle, Ewan McGregor volta para a cidade e, pouco depois, Robert Carlyle sai da cadeia e também volta - para se vingar. Em Cães Selvagens - o original é Dog Eat Dog, Cachorro Come Cachorro -, Nicolas Cage, Willem Dafoe e Christopher Matthew Cook saem da prisão. Não aguentavam mais a vida lá dentro, mas são totalmente ineptos para sobreviver aqui fora. 

A solução, você pode imaginar qual é - um último golpe. O trio sonha reunir bastante dinheiro para se aposentar - no Havaí. Troy/Cage é o líder do grupo, Dafoe/Mad Dog é o falastrão e violento e Matthew Cook, o armário. O golpe é o mais improvável possível - o sequestro do bebê de um chefão do crime. Pintou sujeira, você deve estar pensando. Não está enganado.

Curiosa história, a de Schrader. Curiosa, também, a de Edward Bunker, autor do livro em que ele se baseou. As pessoas surpreendem-se de saber que a família de Schrader era tão rigorosa que viu seu primeiro filme só quando já tinha 18 anos. Ficou tão siderado que decidiu que era o que queria fazer. Na Ucla, a formação calvinista o fez decidir-se por estudar a obra de três autores - o dinamarquês Carl Theodor Dreyer, o francês Robert Bresson e o japonês Yasujiro Ozu. No estilo dos três, o jovem Schrader identificou o que chamou de ‘busca da transcendência’. Ela se reflete na sua obra autoral. Seu roteiro para Scorsese, e um bom exemplo é o de Touro Indomável, são autos de redenção em que os (anti)heróis, mais que com o mundo, batem-se com eles mesmos.

Pode ser uma boa definição para o trio de Cães Selvagens. Como o francês José Giovanni, Bunker esteve preso - em San Quentin - e só depois, ao ser solto, virou escritor. No começo dos anos 1990, o culto a Bunker já era tão grande que Quentin Tarantino fez dele um de seus ‘reservoir dogs’, Cães de Aluguel. Era Mr. Blue. Um crítico já escreveu que o título de seu livro mais famoso, justamente Dog Eat Dog, carrega uma homenagem a Tarantino. Pode ser. Em Cannes, na Quinzena, costumam ocorrer Q&A (perguntas do público, respostas dos diretores), no final das sessões. Apesar do aplauso entusiástico de jornalistas de todo o mundo, Schrader teve de ouvir não poucas críticas. A montagem da cena inicial foi demolida e houve até quem dissesse que o diretor deveria ter resistido à tentação de atuar - como ‘mob boss’.

Em compensação, sobraram elogios para Cage - também é seu melhor papel em anos - e Dafoe. Este último tem não apenas as melhores cenas do filme como momentos emblemáticos de sua carreira. Willem Dafoe recebeu o Oscar de coadjuvante por Platoon, de Oliver Stone, foi o Jesus de Scorsese em A Última Tentação de Cristo. Até no Brasil esteve, e filmou. O diretor, alter ego de Hector Babenco, de Meu Amigo Hindu. Dafoe tem uma cena em que tenta e não consegue tirar o sapato no hotel. Tem outra em que, com Cook - o armário do trio -, tem de se desfazer de um cadáver. Dafoe, literalmente, explode - verborragicamente. Você vai ficar pasmo com o que esse cara faz em cena.

 

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