Fox Film
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Análise: Em 'Alien: Covenant', uma impressionante mistura de ousadia e banalidade

O visual continua impressionante, talvez seja até mais elaborado, mas o clima está mais para 'Prometheus', de 2012

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2017 | 18h09

Há um revival das mais famosas criações de ficção científica de Ridley Scott por volta de 1980. Estreia o novo Alien: Covenant, que ele próprio dirige, e mais para o fim do ano será a vez do remake de Blade Runner, assinado por Denis Villeneuve. Sobre Alien, o visual continua impressionante, talvez seja até mais elaborado, mas o clima está mais para Prometheus, de 2012, que para o original de 1979. Recapitulando. Dois anos depois de Guerra nas Estrelas - a marca Star Wars estabeleceu-se depois -, Scott provocou verdadeira revolução, da ficção científica e do terror, ao retornar à fonte dos filmes B de ameaça do espaço dos anos 1950. Gerou um monstro no ventre do homem, criou uma heroína protofeminista - a oficial Ripley/Sigourney Weaver. Foi um acontecimento.

Alien: Covenant começa meio Blade Runner - o encontro de David, o robô, com seu criador. Prossegue como uma coisa de cinema, sem vínculo com a realidade - em 2014, uma nave gigantesca, carregando mais de 2 mil colonos, ruma para um planeta distante. No caminho, a tripulação é atraída para outra localização no espaço, exatamente como no 1. O primeiro alien demora uns bons 40 minutos para aparecer - num filme de duas horas. O espírito é mais Prometheus, e o conflito principal é mais de Michael Fassbender consigo mesmo. Desconfie desses robôs, tão perfeitos que, como os replicantes (de Blade Runner), podem confundir e se passar por humanos. Não Walter, o outro robô, que sabe o que é.

Em 40 anos de carreira, iniciada exatamente com o sucesso de Os Duelistas, que adaptou de Joseph Conrad, no Festival de Cannes de 1977, Ridley Scott tem sido o mais desconcertante dos cineastas. Brilhante criador de mundos, ele pode ser, ao mesmo tempo, visionário e banal. O grupo desviado da rota chega ao planeta inesperado. Explora sua natureza. O que é isso? Uma espécie de nave? O diálogo muitas vezes é de uma platitude que choca, principalmente se comparado ao grau de elaboração formal/visual. Há uma rápida substituição/desestabilização do comandante da nave para que a nova Ripley - Katherine Waterston, de Animais Fantásticos e Onde Habitam, e ela se chama Daniels -, assuma o controle da situação. Os robôs discutem entre si os avanços do período, mas o aspecto mais relevante da nova produção é a desconfiança do autor em relação ao feminismo de sua heroína. Daniels não é nenhuma Ripley e vai com o filme - olha o spoiler - para uma armadilha, fornecendo o álibi para a sequência que fica em aberto.

O primeiro resolvia-se melhor e, mesmo que tenha virado série, com mais três sequências, quando Ripley entrava em seu leito de operação, parte da aventura parecia realmente concluída - agora você vai saber de cara que não, que a coisa tem de continuar. As questões práticas - Covenant é assustador? Não tanto quanto Alien - O Oitavo Passageiro. Porque agora você já espera tudo - como o monstro vai nascer do homem, como vai se desenvolver, como vai atacar. Mesmo quando muda, Scott não elimina a sensação de que você está vendo de novo. É como o Dr. Kirby - vai virar (Hulk!).

O mais decepcionante talvez seja o próprio bicho. O alien de 1979 foi uma criação do artista visual suíço H. R. Giger, ligado às correntes do surrealismo e da arte fantástica. Giger, que morreu em 2014, trabalhava muito com metais. Criou aquela cabeça e a boca feito armadura que deslocava a mandíbula como uma roldana, com todos aqueles dentes que trituravam as vítimas. E havia mais. Nos planos de conjunto, o alien não era uma máquina animada. Era uma fantasia e, ali dentro, havia uma dançarina massai, Bolaji Badejo, que se movia... Como? Uma graça mortal? A aura foi-se. Tudo é mais, mais, mais. E, alguma forma, menos, menos, menos.

 

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