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Análise: Documentário 'Jovem aos 50' dá conta da festa, que foi breve e não tão ‘alienada’

A Jovem Guarda veio de uma classe média mais baixa, e menos política

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2017 | 05h00

Para o público acostumado ao festival de logos – com as marcas dos patrocinadores – é uma experiência no mínimo diferente. Todo filme brasileiro abre-se do mesmo jeito, com as tais marcas, menos Jovem aos 50. Sergio Baldassarini Junior abre seu filme dizendo que aqui deveriam estar as marcas dos patrocinadores – Nenhuma, nenhuma, nenhuma. Agora, as leis de incentivo – Nenhuma. E, no final, um letreiro. Sendo um filme sobre a Jovem Guarda, imantado pela persona do ‘rei’ Roberto Carlos, Baldassarini Junior informa, no fim, que o ‘monarca’ não quis envolvimento nenhum com a produção.

Contra tudo e todos, ele fez seu filme – e bom. Pode até ser que, por causa da falta de dinheiro para dar acabamento – ou pela dificuldade para reunir material de arquivo, dada a sucessão de incêndios na TV Record –, Jovem aos 50 não seja, esteticamente, o filme que poderia ser. Talvez seja mais uma grande reportagem que um grande filme. É, em todo caso, grande, e cobre um período negligenciado da história da MPB. Da história do próprio Brasil. Vamos ser objetivos – sempre houve, de parte da esquerda, um tanto de desprezo pelo programa que Roberto, Erasmo Carlos e Wanderléa comandavam nas tardes de domingo da Record. Era coisa de ‘alienados’.

Elis Regina fazia passeata contra a guitarra elétrica, identificando nela o inimigo. Mas Gilberto Gil, que participou da passeata, incorporou a guitarra em Domingo no Parque. Caetano Veloso, entrevistado no filme de Baldassarini Junior, recoloca as coisas em perspectiva. “Foi loucura da cabeça do Gil.” E havia no grito de guerra da Jovem Guarda – ‘E que tudo o mais vá para o inferno’ – uma violência, um protesto, que talvez necessitasse realmente de todo esse distanciamento para ser assimilado. Seja como for, tem havido uma corrida às fontes da Jovem Guarda. O movimento passa por uma fase de reavaliação, senão, necessariamente, de revalorização. A canção de protesto, como a Bossa Nova, nasceu de uma classe média (alta) politizada, muitas vezes associada ao morro – Nara Leão e Zé Kéti no show Opinião. A Jovem Guarda veio de uma classe média mais baixa, e menos política. Raggazzi di vita, da rua.

Vários de seus integrantes, o próprio Erasmo, se definem como garotos das ruas. Roberto, antes de ser rei, foi pipoqueiro nas chanchadas da Atlântida (imagem rara), fazendo figuração para Eliana Macedo. O programa nasceu para tapar um buraco nas tardes de domingo. Deveria chamar-se Festa de Arromba e aí, em plena ditadura, um publicitário teve a ideia de batizá-lo como Jovem Guarda. Se ainda não sabe, você vai cair para trás ao descobrir a origem do nome. Foram três anos gloriosos. Baldassarini Junior resgata o antes – Celly Campello, Sérgio Murilo, os reis do iê-iê-iê, o rock brasileiro. Conta histórias maravilhosas. O romance de Netinho, dos Incríveis, com Rita Pavone e que fez dele o astro mais conhecido da Itália em meados dos anos 1960, à frente de Alain Delon e Richard Burton (no ardor da fase Elizabeth Taylor). O encontro dos Jordans com os Beatles. 

Nas entrelinhas, Baldassarini Junior conta uma história do Brasil sob a ditadura. Reflete o conservadorismo da sociedade brasileira – a ‘rainha’ Celly que largou tudo, atendendo ao chamamento do marido, para ser do lar. E Roberto, que criou todas aquelas gírias (‘É uma brasa, mora’) e largou tudo para ser baladeiro romântico avalizado em San Remo. La festa appena cominciata è già finita (De Canzone Per te). A festa apenas começou e terminou logo. Baldassarini Junior dá conta de tudo. A disputa forjada do rei com o ‘príncipe’ Ronnie Von, a gênese dos Mutantes. Nessa história de uma época, faz-se presente o grande tema – o embate de gerações. A juventude contra ‘as pessoas da sala de jantar’. 

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