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Análise: 'Divinas Divas', de Leandra Leal, aplica lição libertária

Do ponto de vista técnico, deve-se ressaltar que longa é muito bem filmado

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2017 | 06h00

Seria quase uma banalidade classificar Divinas Divas como “um filme sobre travestis”. Sim, seus, suas personagens, são transformistas, a começar por Rogéria que, de maneira engraçada, se define como “a travesti da família brasileira”. Isso porque, pela graça, pela presença na TV, pelo humor, se tornou aceitável, digamos assim. Mas as coisas não são todas desse jeito, e nem tão leves, como mostra esse longa-metragem de estreia da cineasta e atriz Leandra Leal. 

Ela filma o que conhece, pela proximidade com as personagens desde a infância, através da mãe, a também atriz Angela Leal. A partir desse ponto de vista, que não é exterior e nem distante, coloca-se como observadora e participante de um mundo que vê com ternura, com imensa simpatia e compreensão. 

Além de Rogéria, desfilam pela tela nomes como Valéria, Jane Di Castro, Camille K, Eloína dos Leopardos e outras. Falam de coisas alegres, são desbocadas, mas há temas mais pesados - o preconceito, o insulto e até a internação psiquiátrica, que era como uma família tradicional lidava com a questão em outros tempos.

Evocam, também, a época de ouro da Cinelândia carioca, que tinha no Teatro Rival um dos seus centros de pulsação. Era o tempo dos espetáculos de revista, do cinema de rua, da vida boêmia, dos bares. Um Rio meio de sonho, que o tempo, a violência urbana, o descaso e as transformações da vida moderna levaram. Nesse mundo antigo, as travestis eram personagens muito presentes na noite carioca. Elas evocam essa época, mas sem o travo amargo da nostalgia. Deve-se dizer que o tom dominante é o do bom humor, da frase de espírito, da inteligência rápida, embora tratem às vezes de problemas muito penosos. 

Do ponto de vista técnico, deve-se ressaltar que Divinas Divas é muito bem filmado. Com uma câmera participativa, porém não invasiva, esboça a intimidade das personagens através de muitos planos sem cortes, que dão continuidade aos depoimentos, às falas e conversas entre elas. 

E, claro, embora seja dito em filigrana, sem discursos pomposos, lá estão as questões de gênero, que são as da nossa atualidade. Divinas Divas entra em cena num momento paradoxal da cultura brasileira. Da sociedade em seu conjunto, para sermos mais exatos, e não apenas da bolha formada pelo universo artístico. Este momento, em que a liberação dos costumes e a explosão das diversidades parece incontornável, é também aquele em que surgem movimentos sociais dos mais regressivos. Quando mais os preconceitos de várias origens e teores parecem absurdos, mais eles surgem no horizonte social e, agora, sem qualquer disfarce. 

Nesse período ambíguo que atravessamos, um filme como Divinas Divas se torna mais importante do que numa época, digamos assim, “normal”. Não porque “humanize” personagens tratados às vezes como caricaturas (porque isso seria pouco, já que humanos somos todos nós), mas porque os traz para muito perto de nós. São pessoas como outras quaisquer, com seus medos, inseguranças, orgulhos e vaidades. Com o adicional de serem artistas, que dançam, cantam, interpretam e fazem do próprio corpo seu campo de experimentação estética. Exercem, como sempre o fizeram, seu direito à liberdade de escolha e expressão. 

 

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