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Análise: Diretor transforma fatos em ficção atraente em 'Snowden - Herói ou Traidor'

O que pode interessar em primeiro lugar ao espectador é a maneira tensa como a história é construída

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2016 | 05h00

Há muito se tenta desacreditar o cinema de Oliver Stone tachando-o de “paranoico”. Ou seja, dado a teorias da conspiração. Citam-se filmes como JFK e Nixon como exemplos. O fato é que seus filmes incomodam. E, desde que resolveu fazer documentários favoráveis a Fidel Castro e Hugo Chávez, Stone entrou de vez no índex da direita norte-americana, e mundial por extensão. Daí, decorrem os problemas que teve para filmar seu Snowden, sobre o ex-agente que vazou documentos da NSA e CIA, expondo o plano mundial de vigilância eletrônica do governo norte-americano. A divulgação causou muito desgaste diplomático nos EUA depois que governantes como a alemã Angela Merkel e a brasileira Dilma Rousseff descobriram que suas contas de e-mail e celulares estavam sendo monitoradas por Washington.

Os fatos hoje são conhecidos de maneira ampla e falam em favor de Stone e seu projeto. Se ele de fato é dado a teorias da conspiração, é porque, de certo modo, estas existem mesmo. São como as bruxas do ditado espanhol: “No creo, pero que las hay, las hay”.

Como outros de seus filmes, também em Snowden Stone se vale de dados factuais tratados com os instrumentos da ficção. Não há nada de mal nisso. O próprio jornalismo literário usa procedimento semelhante e nunca foi desqualificado por causa disso. O cinema também utiliza a clássica advertência “baseado em fatos reais” para dizer que determinada obra começa a partir de uma base de realidade para depois especular de forma fictícia.

Desse modo, devemos entender como inventada a maneira pouco plausível como Snowden passa pela segurança da agência de Estado portando o pen drive com as informações bombásticas. O dissidente seria, na verdade, uma soma de personagens reais. A namorada espionada pela webcam do seu computador é pouco crível. E etc. São dramatizações do real. Também não fica de todo claro o processo no qual Snowden, de funcionário terceirizado da CIA e da NSA teria se desiludido a ponto de vazar as informações secretas.

O que pode interessar em primeiro lugar ao espectador é a maneira tensa como a história é construída. Oliver Stone pode ser um cineasta político (e é, de fato), mas não esnoba o que as tramas possam ter de espetáculo. Sabe que seu espectador paga o ingresso talvez para descobrir alguma coisa que não sabe, talvez para reafirmar o que já sabe e de que desconfia, mas também para se divertir com uma trama bem contada. E ele não nega fogo nesse quesito.

A outra questão é fazer de Edward Snowden (papel de Joseph Gordon-Levitt) um personagem positivo – dado problemático nos Estados Unidos, em que a parte mais conservadora da população o considera um traidor. No filme, ele é visto como uma espécie de consciência em progresso. De início assimilado ao sistema, ao qual se integra como aluno brilhante, vai, de maneira progressiva, se dando conta das implicações das premissas de vigilância, até tomar a decisão de abrir o que sabe.

O cerne de sua descoberta seria a de que as razões de segurança pós-11 de setembro são apenas pretexto para a bisbilhotice eletrônica em nível mundial. O que interessa de fato é coletar informações sobre personagens, governantes, empresas estratégicas (uma imagem da Petrobrás é mostrada) de modo a manter e ampliar o predomínio econômico e social dos EUA sobre o planeta.

Convenhamos: há muito pouco de teoria da conspiração nessa descoberta. Ela é quase óbvia, em sua essência. Snowden teve o mérito de desnudar-lhe os meios de ação. E Stone, de transformar esses fatos em ficção atraente, sem distorcer o que contêm de verdade. Mesmo se fosse apenas ficção, o filme seria bom. Mas ele é muito mais do que isso.

 

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