Sony Pictures Classics
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Análise: Almodóvar revela amor por verdade histórica

Em meio às vidas cruzadas de duas mulheres em idades diferentes, filme resgata cicatrizes da Guerra Civil

Luiz Zanin Oricchio, Especial para o Estadão

03 de fevereiro de 2022 | 05h00

Depois da magnífica autoanálise de Dor e Glória, e do intermezzo pandêmico com A Voz Humana de Cocteau com Tilda Swinton, Pedro Almodóvar volta ao universo feminino e materno que tanto o encanta – e ao seu público. Mães Paralelas é o título dessa volta. 

Há, no entanto, uma novidade nesse retorno. Em meio às vidas cruzadas de duas mulheres de idades diferentes, insinua-se a trama política, esta sim pouco usual em Almodóvar. Verdade que, num sentido largo do termo, todos os seus filmes são, no fundo, políticos. Afinal, tomam à frente a abertura dos costumes e de novas estruturas familiares após 40 anos de um regime assassino, repressor, carola e tacanho como foi o fascismo franquista. 

No entanto, nunca Almodóvar havia se debruçado de maneira direta sobre a grande ferida aberta, e até hoje não cicatrizada, pela Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e seus milhares de mortos. Muitos dos quais enterrados de maneira anônima em valas comuns.

Penélope Cruz, atriz favorita do diretor, faz a fotógrafa Janis. Ela quer descobrir o paradeiro do corpo do seu bisavô, um desses “desaparecidos” da Guerra Civil. Participa de uma associação pela memória histórica de sua cidadezinha, Aldea de los Montes, que busca ajuda para desenterrar e identificar as pessoas assassinadas pelas falanges durante a Guerra Civil. Pede ajuda a um antropólogo forense (Israel Elejalde). Nasce aí uma parceria e também um caso de amor. A outra personagem é a jovem Ana (Milena Smit), adolescente, grávida, inexperiente e ignorante da história do seu país. 

 Quando a madura Janis e a juvenil Ana se encontram sozinhas em uma maternidade, nasce entre elas aquele tipo de amizade tão sólida quanto assimétrica. A mulher experiente e politizada, a jovem alienada e insegura. Qual será o destino de ambas, agora que formam uma estranha parceria, elas e os bebês? 

Como de hábito, Almodóvar joga de maneira muito pessoal com a chave do melodrama. Há, em Almodóvar, uma autêntica perplexidade diante do destino humano, da fragilidade dos fios que tecem a rede sutil da existência, que pode ser rompida a qualquer momento, um descuido no hospital, por exemplo. No entanto, seus desfechos costumam ser testemunhos da fé íntima do artista progressista, a de que se fôssemos mais livres, menos preconceituosos, mais inteligentes e solidários poderíamos muito bem alcançar algo como a felicidade possível neste mundo insensato. 

Em Mães Paralelas, ao amor pelas mulheres, Almodóvar soma o amor pela verdade histórica.  

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