TIAGO QUEIROZ/AE
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Análise: Nelson Pereira dos Santo colocou o País na tela e revelou o brasileiro como um guerreiro

Na produção do cineasta havia o desejo de colocar o Brasil na tela e revelar o brasileiro não como homem cordial

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 23h48

Cacá Diegues, que foi companheiro de Nelson Pereira dos Santos no Cinema Novo, escreveu um texto lindo sobre ele. Disse que Nelson, como todo grande artista, é uma luz que ilumina a criação de um povo, um marco cultural da história do seu tempo e do tempo que virá dele. 

Nelson morreu no sábado, 21, aos 89 anos, de falência múltipla dos órgãos. Ele estava internado desde o dia 12 de abril, no Rio, com sintomas de pneumonia e, durante exames médicos, foi descoberto um câncer no fígado.

Glauber Rocha morreu com 42 anos, Leon Hirszman, com 49, Joaquim Pedro de Andrade, com 56. Nelson conseguiu sobreviver a todos. Viveu mais, produziu mais. Talvez tenha errado mais, mas sua obra, por desigual que seja, possui uma unidade – o desejo de colocar o Brasil na tela e revelar o brasileiro não como homem cordial, mas como um guerreiro que não se rende às circunstâncias. Nelson, tendo escolhido o cinema como meio de expressão, foi estudar cinema nas França, no pré-nouvelle vague. De volta ao País, e impregnado pelo neorrealismo, fez o díptico Rio 40 Graus e Rio Zona Norte.

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Em 1963, e usando o próprio livro de Graciliano Ramos como roteiro, fez de Vidas Secas uma experiência seminal – e um marco na estética da fome do Cinema Novo. Passaram-se 21 anos e, em 1984, com outra adaptação de Graça, Nelson produziu outra obra-prima, Memórias do Cárcere.

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São, talvez, seus maiores filmes, mas o conjunto de suas obras, lançado em DVD – Nelson Pereira dos Santos, Vol. 1 e 2 –, resgata aquilo que Cacá chama de luz que não se apaga. El Justiceiro, o seu Rio Zona Sul; o antropofágico Como Era Gostoso o Meu Francês; O Amuleto de Ogum. Adaptou grandes escritores e pensadores do Brasil – Machado de Assis, Graciliano, Jorge Amado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda. Não admira que tenha sido eleito, em 2006, para a Academia Brasileira de Letras. Poderia integrar também a Academia de Música, fundada por Villa-Lobos, por seus documentários sobre Zé Keti e Tom Jobim.

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Cada um, cada crítico, cada cinéfilo, terá o seu Nelson, mas nesse momento de reflexão – e despedida – o importante é destacar duas obras maiores que ainda permanecem numa espécie de limbo. Fome de Amor, de 1968, ano mítico, foi seu filme mais experimental e plástico. Na Estrada da Vida, de 1980, com Milionário e Zé Rico, foi, pelo contrário, nacional e popular, no sentido gramsciano. O artista, o próprio Nelson, como um trabalhador.

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