Análise de Jerry Lewis: Há uma tradição de obras-primas que ninguém verá

É curioso como certos filmes nem precisam ser feitos para virar míticos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2019 | 06h00

Jerry Lewis nunca deu sorte em sua guerra privada contra Adolf Hitler. Qual É o Caminho do Front?, de 1970, é quase sempre considerado seu pior filme, mas tem um momento notável, quando o milionário que formou um pelotão para combater o nazismo, disfarçado de oficial – como Charles Chaplin, dublê de Hitler em O Grande Ditador –, crava a medalha na carne do supersoldado que está sendo condecorado pela quantidade de judeus que matou. A comédia, Jerry ensinava, é o horror filtrado pela poesia.

Dois anos mais tarde, ele voltou à guerra contra Hitler no inacabado O Dia em Que o Palhaço Chorou. O imbróglio está narrado ao lado. Fragmentos na internet mostram como o filme inspirou o italiano Roberto Benigni a lançar aquele outro olhar sobre o Holocausto em A Vida É Bela. É curioso como certos filmes nem precisam ser feitos para virar míticos – o Napoleão de Stanley Kubrick, que teria lido 500 livros para fazer o roteiro de seu épico nunca filmado. Outros se transformam.

Federico Fellini usou os escombros de um projeto irrealizado para criar a ficção metalinguística de Oito e Meio. A morte de Marilyn Monroe interrompeu Something’s Got to Give, de George Cukor, refeito por outra equipe, menos atraente. Henri-Georges Clouzot deixou inacabado L’Enfer, finalizado por Serge Bromberg e Ruxandra Medrea, que usaram fragmentos filmados (com Romy Schneider) e acrescentaram material também com outro elenco. E Claude Chabrol filmou o roteiro de Clouzot como Ciúme – O Inferno do Amor Possessivo.

Casos célebres, são fornecidos por Dom Quixote, no plural. O de Orson Welles, com o herói de Cervantes no mundo contemporâneo, tem cenas notáveis, mas a versão que passou em Cannes manteve o rascunho, ao contrário de outro filme do grande diretor, Do Outro Lado do Vento, finalizado este ano, por admiradores, para a Netflix. O de Terry Gilliam, refeito pelo diretor, não está à altura de seu brilho.

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