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Análise: 'Corpo Elétrico', uma visão pouco convencional do mundo LGBT

Houve tempo em que o simples tema já era uma transgressão; agora, ele já precisa se reinventar

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2017 | 06h00

Em Corpo Elétrico, Marcelo Caetano se inspira no poema de Walt Whitman para compor uma visão pouco convencional do mundo LGBT. Houve tempo em que o simples tema já era uma transgressão. Agora, ele já precisa se reinventar. E eis o filme que o coloca em novo patamar. 

A história é a de Elias (Kelner Macêdo), jovem criador de uma fábrica de confecção de roupas do Bom Retiro, em São Paulo. Elias vem da Paraíba e gasta seu tempo laboral nas oficinas e o tempo livre em ligações amorosas diversas. Estas se sucedem como se deve, sem contaminação da culpa ou outras intercorrências. Enfim, o filme celebra a alegria possível de alguém que usa o próprio corpo de maneira desinibida, sem exibicionismo, mas também sem transigir em momento algum sobre o seu próprio desejo. É homenagem a uma pessoa livre. 

Este é um aspecto. O outro, fundamental, e talvez alma mesma deste projeto, é a ambientação da história no universo proletário. Caetano mostra o mesmo carinho pelo mundo operário que tinha, por exemplo, Carlos Reichenbach ao retratá-lo em Garotas do ABC e Falsa Loura. São exceções. Como se sabe, o cinema, no Brasil, é, em grande parte, feito pela classe média e para a classe média. Em livro famoso (Brasil em Tempo de Cinema), Jean-Claude Bernardet defende a tese de que nem o Cinema Novo escapou a esse condicionamento de classe. 

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Através de uma gama de personagens, além de Elias, Corpo Elétrico abre um corte transversal nesse mundo de novas configurações. De gênero, de relação livre com o corpo, com o trabalho e o lazer se alternando de forma contraditória à lógica capitalista. 

Elias respeita seu desejo numa cidade em que o culto máximo e exclusivo é o do trabalho. Há uma cena emblema de Corpo Elétrico quando os funcionários saem após o expediente, rindo, brincando entre si, felizes e expansivos. Depois da labuta, abre-se o caminho dos bares, dos encontros e do prazer. Negando o quadro depressivo da rua José Paulino ao cair da tarde, o colorido dos jovens traz uma nuance de alegria ao cinza triste da cidade. Esse lindo plano-sequência crava-se na memória afetiva do espectador. 

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