Fox Film
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Análise: Com 'Alien' de 1979, Ridley Scott mostrou que o perigo estava no escuro

Filme que iniciou a franquia escancarou o perigo existente no espaço – e a fragilidade humana diante dele

Pedro Antunes , O Estado de S.Paulo

10 Maio 2017 | 06h00

Gritos humanos ecoavam nos corredores da espaçonave Nostromo. Ensurdecedores. Do lado de fora, na infinitude do espaço sideral, o silêncio sepulcral. Era apenas o trailer de Alien – O Oitavo Passageiro, exibido nas telas de cinema para divulgar o filme de Ridley Scott. Ao fim daqueles dois minutos perturbadores, uma frase era exibida na tela, capaz de causar um frio na espinha: “No espaço, ninguém pode ouvir você gritar”.

Em poucas palavras, escancarava desespero e solitude. Em um imenso ambiente hostil, no vácuo, não há saída. Com esse terror, Scott e sua equipe mexeram com a cabeça do público. Não era somente a figura bestial do alienígena, brilhantemente criado pelo artista suíço H. R. Giger, capaz de dar pesadelo em criancinhas e adultos. Embora sua figura seja icônica e tenha sido incluída no arquétipo alienígena da cultura pop, o mais importante da obra lançada há 38 anos é o que não se vê na tela. 

Foi um truque genial, na verdade. Ao usar o mistério e a escuridão para limitar a presença do extraterrestre e disfarçar os escassos efeitos especiais da época, Alien insere o público no filme de forma ainda inédita. Tornamo-nos tripulantes da Nostromo, tão assustados quanto aqueles sete astronautas imundos e falhos. Tal qual o suspense provocado pela câmera amedrontadora de Scott, o público se segura na poltrona à espera do próximo ataque, com o grito já entalado na garganta. O medo está naquilo que não conseguimos enxergar. 

E o espaço sideral era a última fronteira – com o perdão do trocadilho. Nada mais inóspito e desconhecido do que aquela imensidão vazia, a milhões de anos luz da Terra. Em 1979, a euforia espacial (no cinema e na vida real) já havia sido encerrada. Dez anos antes, no dia 20 de julho, a bandeira norte-americana foi fincada no solo da Lua e o astronauta Neil Armstrong, com suas frases de efeito, era um herói mundial. 

Findado o romance com o infinito, encontra-se o perigo que também reside ali. Alien vasculha atrás desse sentimento e o agarra como um daqueles abraçadores, tipo de alienígena que se prende ao rosto de Kane, personagem de John Hurt – se você assistiu ao filme, sabe do que estou falando. Scott mostrou: somos frágeis diante do desconhecido espacial. 

Com a união da circunstância (efeitos especiais ainda embrionários e manuais) com o talento de criar narrativa perturbadora, Scott criou seu monstro invisível. É, contudo, o adversário que o diretor precisou enfrentar ao retornar à franquia. Esperto, ele não quis mexer diretamente com isso. Voltou no tempo, foi a Prometheus e, agora, com Covenant, para explicar a origem do seu alienígena, tratou de mudar a narrativa e expor o bicho, com auxílio de muita computação gráfica. É seu erro. Desmistificou seu próprio terror ao expor a fera à luz do dia, ao contar sua origem. Reduziu o terror psicológico para espirrar sangue para todos os lados – e não é isso que o fez genial. 

 

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