Festa do Cinema Italiano
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Análise: Cinema italiano se transforma, passando de fardo a fonte de inspiração

Como o atual cinema italiano tem conseguido reciclar-se e transformar a tradição de fardo em fonte de inspiração. 

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2018 | 06h00

O cinema italiano contemporâneo costuma se sentir meio oprimido pelo peso da sua história. Não é mesmo muito simples para as novas gerações comparar-se a gente como Rossellini, Fellini, Antonioni, Visconti, Monicelli, Risi, etc. Mas, dando-se uma olhada no panorama proposto desta edição de 81/2 Festa do Cinema Italiano, comprova-se que o atual cinema da Bota tem conseguido reciclar-se e transformar a tradição de fardo em fonte de inspiração. 

É o que comprova já o filme de abertura, Fortunata, de Sergio Castellitto. A obra deu o prêmio de melhor atriz a Jasmine Trinca na seção Un Certain Regard, no Festival de Cannes de 2017. Irregular, o filme é cheio de energia ao retratar a jovem mãe divorciada, sobrecarregada de trabalho e tendo de enfrentar um ex-marido abusivo (Edoardo Pesce). Castellitto faz um retrato sem retoques da Itália contemporânea e da posição da mulher em um país visto como machista. 

O destaque da Mostra é Dogman, de Matteo Garrone, que deu a Palma de Ouro de ator a Marcello Fonte no Festival de Cannes de 2018. Ele é o dono de uma pet shop na periferia de Castel Volturno. A história se concentra na relação entre o frágil Marcello e o brutamontes Simone (Pesce, mais uma vez), encrenqueiro que atormenta os outros moradores com seus crimes e ações violentas. Filme muito forte. 

Mas nem tudo é brutalidade no novo cinema italiano. Aqui em Casa Tudo Bem (A Casa Tutti Bene), de Gabriele Muncino, faz uma crônica familiar agridoce que lembra a antiga commedia all’italiana. Já o veterano Gianni Amelio traz A Ternura (La Tennerezza) sobre um advogado aposentado (Renato Carpentieri) e brigado com os filhos, que estabelece relações com a jovem família da casa vizinha. A questão é recorrente em Amelio (diretor do excepcional América – Tempo de Chegar): como manter a ternura e o sentido de humanidade num mundo hostil e materialista? Tema bastante presente num país que recebe o peso da imigração, mas cujas cabeças mais lúcidas não ignoram que ela própria, Itália, foi, no passado um país de emigrantes.

 

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