David Fisher/REX/Shutterstock
David Fisher/REX/Shutterstock

Análise: Choque entre atual e arcaico produz uma estranha realidade em 'Personal Shopper'

Filme é excepcionalmente bem filmado e leva o espectador a uma espécie de realidade outra

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

09 Março 2017 | 05h00

Em seu segundo trabalho seguido com Olivier Assayas, Kristen Stewart é Maureen, jovem americana que trabalha em Paris como assistente de uma celebridade. No filme anterior, Acima das Nuvens, ela fazia o papel de secretária de uma atriz insegura (Juliette Binoche). Agora, Kristen é protagonista absoluta. A câmera quase nunca a abandona, como se fascinada por sua figura esguia e moderna. Sua personagem, Maureen, marca passagens aéreas, reserva mesas em restaurantes e, sobretudo, faz compras para sua chefa em lojas caras. É uma “personal shopper”, nome do filme. Quer profissão mais alienada?

Pois bem, ela é da mesma opinião. Detesta o que faz, o que não a impede de levar uma vida que outros chamariam de glamourosa. Proximidade com famosos, acesso a lojas e restaurantes de grife, vida descolada, numa cidade que ainda é sinônimo de elegância. Maureen está farta de tudo.

Mesmo porque tem outras preocupações. Médium, tenta entrar em contato com o espírito do irmão gêmeo, morto há meses, e que também morava na França. Além do mais, começa a receber mensagens anônimas e ameaçadoras em seu iPhone. Tenta descobrir quem é e não consegue. E esse anônimo parece estar sempre por perto, esteja ela onde estiver. 

Há, assim, duas fantasmagorias que se cruzam - uma do passado e outra do presente. Numa delas, copos se mexem sobre mesas e transmitem mensagens do além; ectoplasmas são entrevistos em corredores escuros e batidas na madeira parecem saídas do nada. Na outra ponta, somos submetidos a uma rede de informações, que tudo sabe sobre nós, nossos hábitos, gostos e intimidades, além de nossa localização geográfica. A esta ditadura dos smartphones nos submetemos de bom grado e até felizes.

Personal Shopper é esse cruzamento do arcaico e do contemporâneo. Excepcionalmente bem filmado, leva o espectador a uma espécie de realidade outra, embora as imagens sejam de uma metrópole contemporânea e febril. Esse choque entre tempos, e também entre a clareza das imagens e o tema que elas percorrem, produz certa sensação de estranheza. Algo que Freud chamou de “Umheimlich”, a estranha familiaridade. No fundo, Personal Shopper fala menos de fantasmas que da fantasmagórica irrealidade em que vivemos. Filme brilhante.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.