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Análise: 'Chocolate' mostra o lado cruel da fama, o reverso do êxito e da conquista

Filme aponta a cor da pele como um fator limitante e indelével na inserção social do indivíduo

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2016 | 03h00

O racismo é questão que está longe de ser liquidada, sabemos. Aqui e em outros lugares do mundo. Por isso, nada mais oportuno do que o lançamento da produção francesa Chocolate, de Roschdy Zem, sobre o famoso clown francês interpretado por Omar Sy (de Intocáveis).

Chocolat é um negro de origem cubana, que ganha a vida num circo mambembe. Quem nele vê potencial de palco (ou melhor, de picadeiro) é o palhaço Footit (vivido por James Thierrée, neto de Chaplin). Ambos formarão uma parceria que se tornará famosa, a união entre um clown branco e um “augusto”. O augusto é o que toma pancadas e serve de escada ao palhaço branco. Mas não é raro que as posições se invertam. Enfim, quem quiser uma lição informal sobre o tema veja o documentário fake Os Palhaços (I Clown), de Federico Fellini, um clássico.

A dupla formada chama a atenção de um empresário, que a leva a Paris. E à fama. E, claro, ao dinheiro. De certo modo, boa parte do desenvolvimento do filme será consagrada a mostrar a dificuldade de Chocolat em se relacionar com o êxito, uma questão secular envolvendo os que, vindos “de baixo”, se tornam “celebridades”, como dizemos hoje. Nunca sabem (e talvez jamais saibam) se os que deles se aproximam o fazem por suas próprias qualidades como seres humanos ou por simples interesse.

Chocolat vive esse problema, mesmo porque o exotismo de ser um negro de sucesso na Paris da belle époque o torna em particular atraente para as mulheres. Mais ainda porque na (boa) interpretação de Omar Sy, Chocolat é dono de uma consciência tanto aguda como perversa, que faz com que jamais se acomode com o que conquistou. E que não é pouco. No entanto, ele quer mais. 

Hoje, diríamos que não se acomoda na “zona de conforto” e busca além. Nada menos que seu reconhecimento como pessoa humana na fechada sociedade francesa, e como ator dramático. Deseja ser ninguém menos que o primeiro ator negro a representar Shakespeare na França. E num papel que, sente, foi escrito para ele pelo Bardo: o de Otelo.

Zem trabalha com afinco sobre a personalidade complexa de Chocolat, aliás, Rafael Padilla. No cume do êxito, Chocolat entrega-se à bebida e ao jogo. Mantém intacta sua ambição e desejo de reconhecimento - essa universal fraqueza humana. Sonhar alto fará sua grandeza e será a sua desgraça. Mas é por causa disso que lembramos dele ainda hoje, embora tenha andado esquecido nos últimos decênios e só agora volte a despertar interesse.

De acordo com os especialistas, o filme de Zem toma muitas liberdades em relação à biografia de Chocolat. Não é documentário. É obra de ficção. Debruça-se no essencial, sem cuidar do acessório. Inventa, quando necessário. E o essencial é mesmo o racismo latente ou explícito que prepara o terreno para a derrocada de um vencedor.

Dirigido de maneira nem tanto inventiva, Chocolate tem momentos muito bons, em especial os propiciados pela dupla Sy e Thierrée. Os bastidores do mundo do espetáculo francês da belle époque, entre os séculos 19 e 20, são retratados com sensibilidade. Mostram o lado cruel da fama, o reverso do êxito e da conquista.

 

O filme aponta a cor da pele como um fator limitante e indelével na inserção social do indivíduo, mesmo quando este se destaca dos demais, como era o caso de Chocolat. É denúncia do racismo quando este mais uma vez mostra sua força e permanência.

São também momentos especiais do filme os diálogos entre Chocolat e um antigo companheiro de prisão, Victor (Alex Descas), dono de agudo senso político. Victor funciona como consciência crítica de Chocolat e mostra como ele ganha dinheiro estimulando o sadismo racista do público. É um espelho para Chocolat. 

Outra sequência especial é quando Chocolat, rico e vestido à europeia, vai visitar uma espécie de zoológico humano no Jardin de Acclimatation, em Paris, e vê uma família de negros expostos à curiosidade pública como bichos selvagens. É como se olhasse para um outro espelho, que devolvesse uma imagem deformada de si mesmo, produzindo um misto de reconhecimento e estranheza.

Pena que esta ideia não tenha sido mais explorada neste filme forte em alguns momentos, mas que deixa passar algumas oportunidades de se mostrar mais incisivo.

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