Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Análise: charme e talento de Tônia Carrero mereciam maior presença no cinema

Atriz morreu aos 95 anos no final da noite deste sábado, 3, na clínica São Vicente, na Gávea, no Rio de Janeiro

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 21h50

Se, como dizia Vinicius de Moraes, beleza é mesmo fundamental, Tônia Carrero podia se considerar aquinhoada como ninguém pela natureza. 

Como é fundamental, mas não é tudo, a própria Tônia precisou convencer-se que, além de deusa, era também uma grande atriz. Arriscou-se num papel em que aparecia sem nenhum glamour. Era a prostituta Neusa Suely, da peça Navalha na Carne, de Plínio Marcos, dirigida por Fauzi Arap.

Plínio, criado no cais do porto em Santos, e poeta dos marginais, não era de endeusar personagem. Assim, Neusa Suely só faz sentido se mostrar vincos e rugas num rosto cansado e sem esperança. E foi o que fez Tônia, para surpresa de todos. Talvez dela própria, que considerava esta a sua grande atuação no teatro. 

Exceções à parte, Tônia tirou ótimo partido da beleza incomum na condução da carreira. Não por acaso teve seus grandes momentos no cinema na Companhia Vera Cruz, fundada para dar um verniz europeu e civilizado ao cinema brasileiro, considerado um tanto indigente por seus criadores. 

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Contracenando com o galã Anselmo Duarte, fez Tico-Tico no Fubá, cinebiografia do compositor Zequinha de Abreu dirigida pelo italiano Adolfo Celi, com quem ela se casou. Estrela em seguida o melodrama Apassionata (1953), de Fernando de Barros. Em seguida, atua na comédia É Proibido Beijar (1954), de Ugo Lombardi, atuando ao lado de outro galã da época, Mário Sérgio.

Depois dessa passagem pela Vera Cruz, Tônia atua, como coadjuvante, em vários filmes, alguns originais, como Gordos e Magros, única direção do fotógrafo Mário Carneiro, e A Bela Palomera, de Ruy Guerra, este um dos grandes nomes do Cinema Novo. 

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Essa escassa filmografia se encerra com uma bela participação em Chega de Saudade, um filme de Laís Bodanzky bonito e sensível, como aqueles que fazia Ettore Scola. Num bailão para a terceira idade, ela forma par com outro monstro sagrado das artes cênicas do Brasil, o ator Leonardo Villar. 

Tônia brilhou intensamente no teatro e na TV, mas sua participação no cinema foi aquém das suas possibilidades. Tanto talento e tanta beleza deveriam ter marcado mais as nossas telas. 

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