Foley Walkers Studio
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Análise: 'Cartas da Guerra' expressam dor e violência nas mensagens do autor à sua amada distante

Filmado em preto e branco, longa mostra imagens nunca apenas ilustrativas

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2017 | 05h00

Há muitas maneiras de se filmar a guerra e Ivo M. Ferreira escolhe uma das mais ousadas. Usa, como fio narrativo, as cartas enviadas de Angola pelo médico e futuro grande escritor António Lobo Antunes. A correspondência está no livro D’Este Viver Aqui Neste Papel Descripto - Cartas da Guerra, organizado por Maria José e Joana Lobo Antunes. A esse fio condutor, monta imagens ficcionalizadas da guerra colonial em Angola, entre os anos de 1971 e 1972. 

António é um jovem médico com vocação literária cuja vida é cortada pela convocação do exército português para servir na violenta região de Chiume, em Angola. Deixa para trás a vocação e a mulher grávida, por quem está apaixonado. 

Filmado em preto e branco, Cartas da Guerra mostra imagens nunca apenas ilustrativas, enquanto as cartas são lidas de modo terno por uma voz feminina. As palavras são líricas, ou mesmo eróticas, enquanto as imagens mostram desolação e violência. Desse contraste, brota a estranha força dessa denúncia pouco convencional da bestialidade da guerra. 

António (Miguel Nunes) encontra algum respiro na convivência com o capitão do seu destacamento (João Pedro Vaz), homem culto, ele próprio convencido da inutilidade cruel da guerra e que só deseja poupar seus homens do pior. Jogam xadrez, conversam de maneira amena e António lhe confia o manuscrito do primeiro capítulo de um romance que escreve. Esse militar civilizado e filosófico acena para um 25 de abril ainda distante, quando, por fim, o sistema colonial português poderá ser desmanchado. 

As cartas acompanham também o ânimo oscilante do artista e médico transformado em soldado provisório. Passa das saudades da amada ao desalento com o tempo infinito que ainda tem pela frente, na linha de fogo. Da angústia dos homens à descoberta de que, sob a miséria, existe um país de enorme beleza e frescor, em tudo diferente de um Portugal a que o escritor se refere como sua “pátria cansada”. Da aflição nasce a compaixão e António sente como sua percepção do mundo se torna mais complexa. “Não se pode viver sem consciência política.” E: “Começo a compreender o Che Guevara”. 

Essa evolução atinge ponto culminante ao receber a notícia do nascimento da filha, em Portugal. O sentimento paterno nascente, o amor pela criança e pela mulher, a compreensão da tragédia do colonialismo, a convicção reafirmada na vocação de artista - tudo flui nas linhas e imagens que compõem esse filme emocionante. E lúcido. 

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