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Análise: 'Capitão Fantástico' é para os que ainda sonham com a revolução

'Capitão Fantástico' é para os que ainda sonham com a revolução

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2016 | 05h00

Num dia comum em Cannes, você assiste a três ou quatro filmes, às vezes cinco, participa de coletivas, faz entrevistas, redige textos. A prioridade, para quem cobre o maior festival do mundo, é sempre a competição, mas existem filmes nas mostras paralelas que não se podem perder. Este ano já havia um bochincho por Capitão Fantástico, em Un Certain Regard. O filme passou embolado com Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e Julieta, de Pedro Almodóvar. Dois grandes filmes centrados em personagens femininas. E veio Matt Ross com seu pai, Viggo Mortensen, que cria os filhos no meio do mato, à margem do ‘sistema’. O que significa essa contestação em 2016?

Capitão Fantástico foi muito bem recebido em Cannes. Foi até premiado - melhor direção - pelo júri presidido por Isabella Rossellini. Antes disso, passara pelo crivo do público, e o público de Cannes é formado, majoritariamente, pela imprensa mundial, formadora de opinião. Pesquise em sites e nas redes sociais. Capitão Fantástico teve ‘standing ovation’ - foi aplaudido de pé durante... Dez minutos! Nenhum filme obtém essa recepção em Cannes se não calar fundo naquele público especial.

Capitão Fantástico está estreando no Brasil. Você já sabe que Viggo Mortensen está selecionado para o Globo de Ouro, na categoria melhor ator de drama. Seu nome aparece em todas as listas de prováveis indicados para o Oscar. Viggo é impecável como o pai que cria seis filhos sozinho no mato. Não à civilização e ao consumo, mas os garotos e garotas não são bárbaros. A par da praticidade da criação, dominam línguas, possuem lastro cultural, sabem argumentar. Essa ‘tribo’ volta à civilização quando a mãe morre. O avô milionário quer os netos de volta. Tenta seduzi-los, cooptá-los. O choque é inevitável.

O choque é visual e se estabelece quando Viggo e os filhos chegam com suas roupas coloridas para o funeral. Eventualmente, o grupo vai roubar o cadáver - a morta - e cair na estrada. Existem vagas remissões em Capitão Fantástico. A O Senhor das Moscas, de William Golding, que virou filme (de Peter Brook), a Na Natureza Selvagem, de Sean Penn, e a Pequena Miss Sunshine. Seria Pequena Miss Sunshine (dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris) para os que ainda sonham com a revolução. Mas, de ponta a ponta, o filme é original, e crítico. Matt Ross não poupa o consumismo nem a mentalidade eternamente hippie. Na verdade, ele está buscando uma terceira via. Ela não vem sem sofrimento. Se o choque com o mundo conservador dos ricos - longe do mato - tem coisas engraçadas, quando o conflito é interno, entre o pai e seus filhos, o tom é dilacerado.

Cannes, com todos aqueles grandes filmes, não era o melhor lugar para se avaliar Capitão Fantástico. Sem dúvida que o filme sobreviveu, permaneceu. Mas, agora, é que se formula o juízo definitivo. Bom, muito bom. De maio para cá, o mundo ficou mais conservador e, na ‘América’, Donald Trump chegou ao poder. Um anacronismo no poder e outro na contestação de valores que não se sustentam mais. Na essência desse filme, está uma questão básica - o que você está fazendo da sua vida? O que você quer ser/fazer neste mundo louco? Matt Ross não tem respostas prontas nem propõe soluções, mas a viagem de Viggo Mortensen e suas ‘crianças’ é muito inspiradora.

 

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