Análise: 'Blow-up' é uma obra que olha para o abismo, como outras de Antonioni

Análise: 'Blow-up' é uma obra que olha para o abismo, como outras de Antonioni

O filme é a meditação sobre esse impasse dos sentidos e do conhecimento. Até onde podemos saber?

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

08 Dezembro 2016 | 06h00

Blow-Up. Para quem assistiu ao filme de Antonioni nos anos 1960, o título era quase um logotipo da época. Em inglês, é apenas ampliação. Refere-se à cena central da história, baseada, de forma livre, num conto de Julio Cortázar, As Babas do Diabo, do livro As Armas Secretas. 

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O que é essa cena? O fotógrafo de moda Thomas (David Hemmings), sem pedir licença, faz a foto de um casal num parque londrino. A moça fotografada (Vanessa Redgrave) tenta lhe tomar o negativo, mas ele não deixa. Revela a foto e a copia. Amplia cada vez mais e julga ver, no canto da imagem, atrás de uma cerca, uma outra cena, talvez um corpo. Talvez um crime. 

Acontece que, a cada ampliação, a própria granulação da fotografia torna a imagem mais difusa e ambígua. O filme é a meditação sobre esse impasse dos sentidos e do conhecimento. Até onde podemos saber? Em seu tamanho “natural”, a foto não revela nada de mais. À medida que é ampliada, ganha em dimensão e perde em nitidez. 

Estamos aqui falando em literatura. A origem, lembremos, é um conto, a mais complexa peça literária escrita por Cortázar, com exceção do romance O Jogo da Amarelinha, segundo o crítico Davi Arrigucci Jr. em O Escorpião Encalacrado, obra fundamental da interpretação do autor argentino. No conto, a narrativa vai se esgarçando, fica menos nítida à medida que tenta penetrar no mistério proposto pela foto. 

E estamos falando de cinema. Porque, se a versão é livre, Antonioni capta o essencial do conto de Cortázar. Quanto mais avança no território do mistério, menos vê. Num mundo de instabilidade total, até onde nos é dado enxergar? De certa forma, Blow Up é uma anti-história de detetive. Nesta, parte-se do mistério ao esclarecimento. Das trevas à luz. Em Blow-Up, a situação inicial é clara, mas quanto mais Thomas busca saber, menos sabe. Até chegar ao desfecho, com os jogadores de tênis que disputam a partida sem bola. Pelo menos, o observador (Thomas) não a enxerga, até se decidir a entrar ele também no jogo. Como outros filmes de Antonioni, este também olha para o abismo. 

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