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Análise: 'As Sufragistas' é duro e a ficção puxa para o sentimentalismo

É quase impossível não simpatizar com o sofrimento de Maud, Violet e Emily Wilding Davison

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2015 | 04h30

Há uma cena de As Sufragistas em que o marido, Ben Whishaw, pergunta a Maud/Carey Mulligan o que ela faria, se pudesse votar. Ela responde que iria exercer seus direitos, como ele. Mais tarde, quando tenta ver o filho, e lhe diz que o filho é dela, o marido responde que não - a lei lhe dá a guarda e o garoto é dele, para fazer o que quiser, até mesmo dá-lo em adoção. E, mais tarde, acossada pelo policial, Steed/Brendan Gleason, que diz que ela tem de respeitar a lei, Maud retruca que, para isso, é preciso que as leis sejam respeitáveis, isto é, que a reconheçam como indivíduo, com seus direitos e não apenas deveres.

É quase impossível não simpatizar com a causa das suffragettes, com o sofrimento de Maud, Violet e Emily Wilding Davison que, no começo do século passado, deu a vida pela causa dos direitos das mulheres. Há esse lado militante muito forte no filme de Sarah Gavron, que talvez evoque, no imaginário dos cinéfilos, uma espécie de versão feminina do Professor Sinigaglia interpretado por Marcello Mastroianni em Os Companheiros, de Mario Monicelli, de 1964. Vale citar o Monicelli porque o filme foi (re)visto há pouco na retrospectiva que o Festival de Cinema Italiano dedicou ao grande diretor, em seu centenário.

Não se preocupe com juízos de valor - o Monicelli é melhor. Mas os operários em Turim, na virada do século 18 para o 19, ou as empregadas da lavanderia em Londres, no biênio 1913/14, lutam contra o trabalho escravo, as condições insalubres. E as mulheres ainda lutam por mais alguma coisa - contra o abuso de chefes que dispõem delas como objetos sexuais.

Escrito por Abi Moran, autor do roteiro de A Dama de Ferro, As Sufragistas toma o partido das mulheres e isso significa afrontar o poder dos homens, com seu aparato repressivo. O filme é interessante, mas também tem seus problemas, pois, na verdade, são dois filmes em um. Há todo um lado, digamos, documentário em As Sufragistas. O filme reconstitui com precisão a lavanderia, a Londres dos pobres, os debates no Parlamento. Seria um docudrama nesse esforço de reconstituição, com muitas personagens reais, incluindo a suffragette-mór, que Meryl Streep interpreta (em poucos minutos, apenas) com um dos sotaques mais estranhos de sua carreira. E existe a ficção, a personagem de Carey, Maud.

As duas histórias, a macro e a micro, muitas vezes entram em choque. O documentário é duro, a ficção puxa um pouco para o sentimentalismo. Esse choque transparece na mise-en-scène. O lado documentário é narrado com urgência, o ficcional dilui nos primeiros planos de Carey Mulligan a arquitetura urgente de noticiário do drama. O aspecto documentário termina por predominar quando entram as imagens do enterro da mártir, mas muitas vezes a gente tem vontade de pedir a Carey/Maud que se afaste para que se possa ver melhor. No cinema de bordas, aqui, pelo menos, a ficção embaça o documentário.

O filme é bem interpretado, a história é interessante. Carey, Meryl, Sarah (a diretora) todas têm discursos contra a dominação masculina em Hollywood. O cinema também é personagem, mas fica essa sensação de falta de rigor. É bom ver As Sufragistas, mas não há como não pensar que poderia ser melhor.

 

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