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Análise: Arte de metáforas em 'A Visita' desafia senso comum para expor a crise

Longa é dirigido por M. Night Shyamalan

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2015 | 04h00

Há um mistério Shyamalan, mas talvez não seja exatamente aquele sinalizado pelos que lamentam a ‘queda’ do artista. M. Night estourou com O Sexto Sentido, sobre aquele garotinho que conseguia se comunicar com os mortos e cuja relação com Bruce Willis conduzia a um twist final. Na sequência, veio Corpo Fechado, quase tão bem-sucedido nas bilheterias, mas que marcou uma espécie de divisão.

A maioria da crítica decepcionou-se, certamente por não haver entendido nada do clima ambivalente da ligação de Bruce Willis (de novo) com Samuel L. Jackson. O primeiro sobrevive a um acidente de trem. Tentando descobrir o que houve - sua vida virou de cabeça para baixo -, ele se aproxima desse homem que tem uma estranha doença que se poderia definir como ‘ossos de vidro’. Por nada, ele se lesiona, se quebra. Essa fragilização forçada é um elemento metafórico que Shyamalan usa paras construir o mais radical filme sobre racismo produzido por Hollywood nos anos 2000.

Numa entrevista que deu ao repórter - sobre A Vila -, o diretor indo-americano falou da pressão da indústria, que continuava apoiando seu trabalho (‘sua visão’, como ele definiu) na expectativa de que, de seus sucessivos fracassos, surgisse um novo sucesso. Shyamalan não parecia preocupado com números. Chegou a dizer com todas as letras que não ia mudar para tentar agradar a quem quer que fosse, e muito menos ao público. Querendo agradar a todo mundo, disse, a gente se arrisca a não agradar a ninguém. Um discurso anti-indústria. O melhor que um diretor pode fazer é agradar a si mesmo. Shyamalan vai mudar o rumo? Só se for para ser fiel a suas concepções.

O ‘mistério Shyamalan’ é esse estranhamento que seus filmes provocam. O sobrenatural vira linguagem, tudo é signo. A Vila é uma metáfora sobre os EUA de George W. Bush no pós-11 de Setembro. A vila é isolada, cria-se um monstro (que é falso) para dominar as mentes e acirrar a paranoia. O público talvez tenha se decepcionado com a desconstrução do ‘monstro’, mas era um gesto político do diretor que a ‘massa’, condicionada pelo apoio patriótico da mídia a Bush filho, não acompanhou.

Sinais, Fim dos Tempos, Depois da Terra são todos filmes de ‘monstros’ que lidam com paranoia e a difícil sobrevivência do homem no planeta condenado por sua ganância. A Dama da Água é sobre a arte de narrar. O Último Mestre do Ar é sobre ‘mitos’. No geral, o cinema de Shyamalan arma mistérios que parecem frágeis, enigmas que só são considerados como tais porque o homem se recusa a ver o que está diante de seus olhos. O perigo que ele cria parece falso, mas é sempre real. Se há uma coisa de que Shyamalan não desiste é de manter-se crítico. Quem sobreviver talvez chegue, um dia, à conclusão de que seu cinema era (é) profético.

 

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