Oswaldo Jurno/Estadão
Oswaldo Jurno/Estadão

Análise: Adoniran deixou um samba sem nome

Seu samba não existe sem sua pessoa e ninguém mais sabe onde começa um e termina o outro

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

23 de janeiro de 2020 | 07h00

O samba tem em Adoniran Barbosa uma figura única, de corpo e alma, que extrapola as histórias dos autores e intérpretes desde o momento em que ele nasce em Valinhos, no interior de São Paulo, até sua morte por enfisema pulmonar, 72 anos depois, em São Paulo. Nada do que viveram os sambistas clássicos se encaixa em Adoniran, o que explica porque é que nada do que cantam os sambistas clássicos se encaixa no repertório deste senhor. Sua força é tamanha que Adoniran atropelou a lógica das origens, preparada por décadas para legitimar criadores anônimos saídos das comunidades, para ser aceito como criador de uma escola sem alunos, um gênero sem seguidores e um samba sem nome. Afinal, o que fez Adoniran? Não é partido alto, não é samba de breque e não é gafieira, assim como não é samba rock, samba enredo, samba de bumbo dos paulistas do Vale do Paraíba nem samba de terreiro. Deste, aliás, está bem distante. Seu samba não existe sem sua pessoa e ninguém mais sabe onde começa um e termina o outro.

João Rubinato era branco, filho de italianos, apaixonado por rádio e por palcos antes mesmo de se jogar no samba. Depois de muitas tentativas, foi aceito como ator e gravou um respeitável número de filmes, vivendo personagens como Mané Mole em O Cangaceiro, de 1953; um judeu vendedor de móveis em Carnaval em Lá Maior, de 1954; e Siqueira em A Pensão da D. Estela, de 1956. O tipo engraçado, gaiato, de criar uma linguagem própria valorizando os erros arrastados por um sotaque italiano começava a ser forjado e fortalecido por uma aceitação popular que o comprava como um personagem dentro e fora das cenas.

Ao contrário dos sambistas do Rio que gravam sobretudo a partir dos anos 1960, a crônica de Adoniran não vai exaltar o Brasil e suas belezas naturais nem afirmar o orgulho de cor. Adoniran é o anti-malandro que, em geral, vai se dar mal. Seu samba de coração mole vai cantar a maloca com saudade; ter apegos familiares intensos, como à mãe, solitária de Jaçanã que o faz deixar a amada para não perder o trem; e sentimentais, como à mulher, que se recusa a jogar a chave pela janela quando o vê chegar da noitada. Samba do Arnesto, uma ficção, fez de Arnesto um crápula, obrigando o amigo a desmentir Adoniran até o fim de seus dias, dizendo que jamais havia deixado a turma na rua depois de convidá-la para um samba no Brás.

Martinho da Vila tem cantado em seus shows um samba gravado por Adoniran, Apaga o Fogo, Mané, um contraponto à supremacia dos homens nas relações com mulheres, em geral, submissas a uma condição entendida por muitos como natural e muito presente no repertório do próprio Martinho, em músicas como Mulheres ou Você Não Passa de Uma Mulher. Pois a Inez de Adoniran dá o troco, saindo de casa depois de deixar apenas um bilhete ao lado do fogão dizendo “pode apagar o fogo Mané que eu não volto mais.”

O samba com divisão de vozes dos Demônios da Garoa também não segue o molde dos sambas de rádio dos anos 20 e 30, defendidos por gente como Ismael Silva (fornecedor de muitos sambas que seriam assinados e cantados por Francisco Alves); Noel Rosa, um cronista que se levava a sério; e dos sambas de terreiro (Adoniran nada tinha a ver com as religiões de mãe africana, fornecedoras históricas de material humano e do além para mais de um século de sambistas). É simplesmente o samba de Adoniran, o samba da maloca, o samba da Mooca. Não, nada fica tão bom quanto simplesmente chamá-los de Trem das Onze, Tiro ao Álvaro, Iracema, Saudosa Maloca...

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