Archipel 35/Esfera Cultural
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Análise: 'A Trama' mostra uma oficina literária como microcosmo da França

O que faz o interesse dos filmes de Cantet, e deste em particular, é sua abertura para a diversidade

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2017 | 06h03

Laurent Cantet usa processos educacionais como microcosmos da sociedade. Foi assim em seu estupendo Entre os Muros da Escola, Palma de Ouro em Cannes 2008. Deslocando um pouco (mas não muito) seu centro de interesse, apresenta agora A Trama (L’Atelier), com preocupação e estratégia narrativa semelhantes.

Aqui não se trata de uma escola convencional, mas de uma oficina (workshop) literária em que uma escritora famosa reúne em torno de si um grupo de jovens. A ideia é que, em conjunto, desenvolvam um romance policial. Olivia Dejazet (Marina Foïs) é a escritora célebre que se dispõe ao trabalho social com jovens de baixa renda.

+++ 'A Trama' externa busca implacável pelo entendimento

Os alunos formam o mosaico variado da composição étnica e social da França contemporânea. Entre eles, um particularmente rebelde, Antoine (Mathieu Lucci), desperta a atenção da professora.

O que faz o interesse dos filmes de Cantet, e deste em particular, é sua abertura para a diversidade. E a atenção para as arestas entre os indivíduos, que não são aparadas de modo fácil ou conciliador. Pelo contrário.

A estrutura é de uma dinâmica de grupo, em que os conflitos vão aflorando à medida que o trabalho prossegue. Aliás, a própria validade da proposta é posta em xeque pelo grupo. E por Antoine em particular. Por que escrever? Em que esse ato pode alterar ou mesmo ajudar a vida daquelas pessoas jovens e em fase de definições? Quais as relações entre a escrita e vida de todos os dias? Um texto pode desestabilizar um grupo ou funcionar como estigma ao seu autor?

São questões que extrapolam o trabalho coletivo e mostram como podem ser ricas as inter-relações entre arte e vida quando postas em uma estrutura de grupo.

No entanto, nada disso é colocado de maneira benévola ou ingênua. Os conflitos afloram, e de maneiras variadas. Primeiro, porque há uma questão regional, associada a um estereótipo geográfico. A professora é parisiense, os alunos são de La Ciotat, antigo e importante canteiro naval francês, caído em decadência.

Como todos os jovens, esses, que são de baixa renda, se perguntam pelo futuro e, mais ainda, numa região em decadência econômica e portanto sem muitas perspectivas. ‘O que a literatura tem a ver com isso?’ é a pergunta que retorna a cada volteio da trama. Essa, portanto, é costurada em contato direto com a realidade e seus desafios.

E há, claro, as questões de relacionamento com a figura de autoridade, mesmo quando essa se apresenta de maneira “amiga e igual” como Olivia. Ela sempre será a autora parisiense e bem-sucedida, que está fazendo a suprema concessão de doar seu tempo a jovens desconhecidos e talvez sem grandes perspectivas futuras. 

Acontece que Olivia também se encontra em crise de escrita e enxerga no contato com os jovens, com Antoine em particular, um desafio que talvez possa reativar sua criatividade.

Cantet faz um cinema realista, que às vezes se parece a um documentário, e aponta para a diversidade como o valor positivo máximo de uma sociedade. Entende-se. A França acuada pelo crescimento da extrema-direita, o realismo econômico de Emmanuel Macron e a insatisfação dos jovens parecem dar num beco sem saída.

Um cineasta progressista como Cantet tende a ver como solução e esperança justamente aquilo que a direita de Marine Le Pen interpreta como problema e limitação.

 

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