Zeta Filmes
Zeta Filmes

Análise: 'A Mulher que se Foi' e o humanismo expresso em rara experiência cinematográfica

Filme do diretor filipino Lav Diaz é inspirado em conto de Liev Tolstoi

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

09 Maio 2017 | 04h00

O conto de Liev Tolstoi, Deus Vê a Verdade, mas Espera (1872), tem umas três ou quatro páginas, dependendo da edição. O filme de Lav Diaz, inspirado no conto russo, dura quase quatro horas. E A Mulher que se Foi é dos mais curtos do diretor filipino. A extensão não é mero capricho ou excentricidade. Supõe um tratamento diferente com a matéria-prima do cineasta – o tempo. Por isso seus filmes também pedem um espectador disposto a algo mais que um entretenimento leve ou uma descarga rápida de adrenalina. Diaz exige um público sereno, disposto a uma imersão mais profunda na experiência cinematográfica. 

Quem conhece o conto sabe que ele trata de uma condenação injusta. Durante uma viagem, o comerciante Aksemov dorme numa estalagem e, no dia seguinte, é acusado de ter assassinado um homem durante a noite. Não tem álibi. Em sua mala encontram a faca ensanguentada que tirou a vida do outro. Condenado, vai cumprir pena na Sibéria. É um conto triste no qual o cristão Tolstoi reflete sobre a silenciosa onisciência de Deus. 

No mais materialista (mas não menos fanático) século 21, o silêncio de Deus, tema de recente filme de Scorsese, já não parece uma dúvida religiosa tão atual. Mas a questão da injustiça permanece. E hipotética reparação de vidas destruídas ainda mais. De fato, o que fazer quando se teve a existência arruinada por 30 anos de cárcere, pagando pelo crime de outro? Sobre essa questão medita a personagem Horacia (Charo Santos-Concio), ao ser libertada após a confissão de outra detenta. Refazer a vida? Como fazê-lo se o marido já morreu, uma filha cresceu e está casada, o outro filho desapareceu e ninguém sabe dele? Vingar-se? Mas a vingança significaria estragar o resto da existência de que ainda dispõe e voltar de novo ao cárcere, desta vez por um crime de fato cometido. 

Horacia vive essas dúvidas. O que vemos na tela não são ruminações, mas ações. A retomar a liberdade, essa antiga professora reveste-se de algumas personas diferentes. Durante o dia é dona de uma pequena casa de refeições. À noite, veste-se de maneira masculina e convive nas ruas com mendigos, vendedores de “Balut” (comida filipina à base de ovos de pata) e travestis. Durante todo esse tempo, estuda a melhor maneira de se aproximar de Rodrigo (Michael de Mesa), o milionário responsável por sua prisão injusta. O desejo de vingança mescla-se a uma bondade essencial, que a faz ajudar crianças famintas ou uma travesti agredida. Às vezes a vemos como uma fria estrategista de um crime de morte. Outras, como alguém de tão pura bondade que se parece com o príncipe Mishikin, de O Idiota, de Dostoievski. 

Tolstoi, Dostoievski... De fato, há um clima “russo” na maneira como Diaz estrutura suas histórias. A culpa, o castigo, a transferência de responsabilidade, certo sadismo judiciário e policial, tudo isso costuma frequentar sua obra e esta não é exceção. Miseráveis convivendo com a opulência, o medo atávico do povo aos poderosos, ressentimentos, o desprezo dos de cima pelos de baixo, a facilidade com que uma vida pode ser destruída pela petulância de um chefete – são traços sociais antigos, tão bem captados pelos novelistas russos e que, hipocritamente, achamos superados e abolidos pela modernidade. 

A história é levada nessa ambivalência perturbadora, e então se afasta do original de Tolstoi que, de fato, serviu apenas como uma célula de inspiração a Diaz. O dom fabulatório do filipino explora novas possibilidades e coloca a premissa de injustiça tirada de Tolstoi na perspectiva da violenta sociedade filipina. O ano é 1997 e uma onda de sequestros abala a sociedade, em especial a classe empresarial. A câmera registra paisagens desoladas, favelas, moradores de rua, junto a mansões. Não é preciso qualquer discurso para assinalar a profunda desigualdade social do país. E essa condição é propícia para o clima de insegurança, o desconforto social, a sensação de que algo de grave está sempre prestes a acontecer. 

Essa experiência sensorial é esculpida em imagens em preto e branco, longos planos estáticos, nada de música, porém um uso muito intenso dos sons do ambiente. O cinema de Lav Diaz é discreto, e brilhante. 

Mais conteúdo sobre:
Cinema Filipinas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.