Walt Disney Pictures
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Análise: 'A Bela e a Fera' faz alerta para risco da aparência enganadora

Nova versão do conto tem provocado polêmica por um detalhe nada irrelevante. LeFou, o companheiro de aventuras de Gaston, é pintado como gay

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 Março 2017 | 05h00

Pedagoga, jornalista e escritora francesa, Jeanne-Marie Leprince de Beaumont foi pioneira na arte de escrever para crianças. Sua criação mais famosa é A Bela e a Fera, que ela assinou como Madame Leprince Beaumont em 1756 - havia uma versão anterior. O marido só serviu para isso. Rapidinho, a união foi declarada nula por conta da vida dissoluta que ele levava.

É curioso que, justamente na quinta, 16, esteja estreando mais uma versão live action de A Bela e a Fera. Coincide com a retrospectiva de Jean Cocteau, ainda em cartaz na cidade. Em 1946, o artista multimídia fez uma celebrada versão de A Bela e a Fera, com seu companheiro, Jean Marais, no duplo papel da Fera e do príncipe. Conta a lenda que Greta Garbo, convidada por Cocteau para ver o filme numa sessão privada, não se teria conformada. “Give me back my beast” - ela pediu o monstro de volta. Era muito mais sedutor.

A nova versão do conto tem provocado polêmica por um detalhe nada irrelevante. LeFou, o companheiro de aventuras de Gaston, é pintado como gay. Talvez já fosse, mas desta vez a coisa é escrachada para destacar o narcisismo de Gaston. O próprio LeFou, traído pelo pretendente de Bela, diz que há um monstro nessa história, e não é a Fera. Gaston vê o mundo como espelho para o seu brilho. Incita a multidão, despreza a independência de Bela e tenta, repetidas vezes, matar a Fera. Na sua versão ‘príncipe’, a Fera, inicialmente, não diferia muito de Gaston, e por isso é punida pela feiticeira com o fardo da aparência horripilante. Livrar-se dela, e de Gaston, é necessário para o pleno desenvolvimento humano dos personagens.

Bill Condon é o diretor de A Bela e a Fera. Como roteirista e cineasta, tem seu nome ligado a filmes como a saga Amanhecer - que formatou -, Deuses e Monstros, Kinsey - Vamos Falar de Sexo e Sr. Sherlock Holmes. Vários de seus filmes abordam a questão da sexualidade, incluindo a homo. Condon adota o formato musical. As canções são conhecidas. No clímax, a Bela e a Fera vão dançar. Ao redor, no castelo enfeitiçado, estão todos aqueles personagens que você sabe - Lumière (o candelabro), Horloge (o relógio), a Sra. Potts (xícara), etc. Quando readquirem o formato humano, são muitas as surpresas - Emma Thompson, Ian McKellen, Stanley Tucci, Gugu Mbatha-Raw.

Vale perguntar-se por que A Bela e a Fera segue sendo tão atraente, mais de 350 anos depois que Madame Leprince Beaumont recontou a história original de Gabrielle Barbot. A fábula com certeza alerta para o risco da aparência enganadora - um tema sempre atual na sociedade da imagem -, da mesma forma que a fala mais forte da Bela é quando diz que não se pode ser feliz sem ser livre. 

Em 1991, quando Gary Trousdale e Kirk Wise fizeram a versão animada, havia uma revolução tecnológica em curso - e a Bela e a Fera dançaram no computador. Mais recente, houve a versão live action de Christophe Gans - com Léa Seydoux e Vincent Cassel - que não teve muita repercussão. Talvez seja exagerado creditar o sucesso da nova versão à polêmica sobre LeFou. Emma Watson, de Harry Potter, é gracinha, mas não muito carismática. O ator que faz o príncipe é tão sem graça que Bela chega a dizer... Veja o filme. O charme, que essa versão tem, não se liga tanto aos efeitos nem ao luxo da produção. São os momentos de interação - da Bela, quando descobre a humanidade da Fera, da Sra. Potts e do filho, de Lumière e Horloge, da cantora lírica, convertida em armário, e seu maestro (o piano). Nessas cenas, impõe-se o encanto à moda antiga, e Condon acerta a mão.

 

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