Ana Carolina devolve Sarah Bernhardt aos franceses

Ana Carolina seguiu hoje para Paris. Nesta quarta-feira à noite, Amélia abre, para o público, o 3.º Festival do Cinema Brasileiro na capital francesa. O evento é organizado pela Jangada, uma ONG que se dedica à divulgação da cultura brasileira na França. Ana vai cheia de expectativa. Amélia é uma ficção sobre a passagem da célebre Sarah Bernhardt pelo País. Sarah é interpretada pela francesa Béatrice Agenin, que ganhou o Soleil d´Or de melhor atriz no Festival de Biarritz, no ano passado. E Amélia, que dá título ao filme, é a personagem de Marília Pêra, a camareira da diva.Isso você já sabe porque Amélia estreou nos cinemas brasileiros em agosto. Ana fez uma coisa audaciosa. Sobrepôs, à história de Sarah Bernhardt e sua camareira brasileira, a das três irmãs da camareira, três matutas do interior de Minas que irrompem na corte e nos bastidores do teatro em que a mitológica Sarah se apresenta. Na cena culminante, Myrian Muniz recita o poema de Gonçalves Dias I-Juca Pirama. E o filme termina como o reverso de Como Era Gostoso o Meu Francês, de Nelson Pereira dos Santos. Lá, os índios comiam o colonizador francês para se apossar de sua força. Aqui, Sarah "devora" as matutas e termina por integrá-las, vestidas de índias, ao seu espetáculo que estréia em Paris.Faltam poucas horas para a estréia de Amélia na capital francesa. O filme vai passar numa sala no Marais, pertinho do Centro Georges Pompidou, o Beaubourg. Ana mal pode esperar para ver qual será a reação dos franceses. Afinal, seu filme não trata apenas de um ícone da cultura francesa, mas também das relações entre colonizados e colonizadores. No Brasil essa discussão foi compreendida e rendeu páginas de jornais e revistas, até porque Ana a encena do ponto de vista do colonizado, para tentar entender, por vias tortas, esse mundo globalizado de aqui e agora. A expectativa agora é: como o filme será visto lá fora, do ângulo do colonizador."Será que vão entender o código de I-Juca Pirama?", pergunta a diretora. O suspense termina amanhã, mas o filme terá mais duas sessões - na sexta, à tarde, e no domingo, à noite. Na sexta, após a projeção, ocorre um debate com o público. Ana Carolina está entusiasmada. Béatrice Agenin, que pertence à Comédie Française, vestiu a camiseta do filme e está chamando os amigos para a première desta noite. Some-se a isso o prestígio da própria Ana na França e pode-se acreditar nas possibilidades de Amélia entre o público francês. Um dos objetivos do festival, informa sua criadora, Kátia Adler,é justamente atrair distribuidores interessados em colocar a produção brasileira nos cinemas da França. Não é uma tarefa fácil, pois embora a França seja um dos países que mais tentam resistir à força avassaladora da máquina de Hollywood, a produção americana também domina a oferta de filmes nas telas parisienses.Já está acertado que Ana deve permanecer em Paris mais algum tempo (o festival segue até o dia 3), justamente fazendo contatos com distribuidores. Sem modéstia ela conta que Mar de Rosas, o filme que abre sua trilogia sobre a condição feminina provocou um escândalo na França e pipocou não só por festivais, mas também pelo circuito de arte do país. Essa carreira de Mar de Rosas foi apadrinhada por Pierre Kast, diretor francês ligado à nouvelle vague que foi um amante das coisas do Brasil (morreu em 1984, filmou aqui A Nudez de Alexandra). Das Tripas Coração, o segundo filme da trilogia, e Sonho de Valsa, o encerramento, também obtiveram repercussão na França, especialmente o segundo. No último, com problemas de doença em família, Ana não pôde participar do lançamento, mas o filme encontrou seu caminho, independentemente dela. A expectativa, agora, é por Amélia. Sarah Bernhardt volta à sua terra.

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