Ana Carolina debate sexualidade na Cinemateca

Seu rosto é tão bonito e expressivo que Ana Carolina, ao adotar o cinema como projeto de vida, poderia, quem sabe, ter feito uma fulgurante carreira diante das câmeras. Mas Ana preferiu instalar-se atrás delas e é, com certeza, uma das grandes personalidades do cinema no País, desautorizando qualquer discriminação pelo sexo. Ela é grande não só entre as mulheres, mas entre os homens também.Seu último filme, Sonho de Valsa, fecho da trilogia que começou com Mar de Rosas e prosseguiu com Das Tripas Coração, é de 1988. Passados 12 anos, Ana está voltando - e concretizando um sonho com Amélia (ex-Páscoa em Março), que estréia no segundo semestre. O filme teve sessão reservada no fim de semana, em Brasília. Foi exibido para o presidente Fernando Henrique Cardoso, para d. Ruth, integrantes do ministério e alguns amigos da diretora.Ana, uma paulistana que se instalou no Leblon, no Rio, participa no domingo do ciclo de debates promovido pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, na Sala Cinemateca. Haverá, às 17 horas, uma exibição do filme Das Tripas Coração, de 1982, seguida de debate com a diretora e o crítico Luiz Carlos Merten, do jornal O Estado de São Paulo. A série de debates intitula-se Sempre aos Domingos, e o tema em pauta neste fim de semana é a sexualidade. O filme de Ana é rico e intrigante, como ilustração de uma sexualidade no mais das vezes reprimida.Foi um filme que teve problemas com a censura da época. Os censores quiseram liberar Das Tripas Coração somente com cortes (que totalizavam 20 minutos) e impropriedade até 18 anos. Ana lutou bravamente por sua criação. O filme terminou sendo lançado sem corte algum. São apenas cinco minutos de delírios e fantasias do interventor (personagem interpretado por Antônio Fagundes) encarregado de assinar a ata de fechamento de um internato para garotas.Ana estende esses cinco minutos para hora e meia de provocação, ironia, ofensa e também lirismo, discutindo repressão e poder, fazendo revelações sobre o universo feminino e, claro, tratando do tema em debate na Sala Cinemateca - a sexualidade. Como seus admiradores não se cansam de dizer - e ela os possui, numerosos -, Ana levou o cinema autoral às últimas conseqüências, fazendo de sua trilogia as memórias de uma moça mal-comportada que olha o mundo por meio das personagens femininas. Por sua ousadia, talvez se destinasse, preferencialmente, ao reduzido circuito de arte. Mas com sua fina ironia ela conseguiu conquistar também os espectadores. E, desta maneira, unindo público e crítica, marca sua presença na história do cinema brasileiro.Das Tripas Coração -. Direção de Ana Carolina. Domingo, às 17 horas (haverá debate com a cineasta). R$ 15,00. Sala Cinemateca. Largo Senador Raul Cardoso, 207, tel. 5084-2177.

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