Ana Carolina coloca o País no divã

Ana Carolina foi fisioterapeutaantes de virar cineasta. Age como se tivesse sido psicanalista.Ana Carolina deita o Brasil no divã e faz a psicanálise do Paíspara entender o mundo em que vive. Ou sobrevive. O ciclo quecomeça amanhã na Sala Cinemateca mostra o documentárioTrabalhadores do Brasil, sobre Getúlio Vargas, os trêsfilmes de ficção que compõem a famosa trilogia da autora - Marde Rosas, Das Tripas Coração e Sonho de Valsa - e maisAmélia. São cinco reprises e uma (pré)estréia, a de Gregóriode Mattos, o curta sobre o Boca do Inferno que Ana esticouaté fazer, com pouco dinheiro e muita disposição, um longa.Pode ser que a psicanálise já estivesse presente noscurtas que a diretora realizou antes de Trabalhadores doBrasil, mas ela irrompe mesmo, ou se consolida, no filme sobreGetúlio. Ana Carolina usa a figura do pai dos pobres paradiscutir o governante como substituto do pai. Resgata imagensimpressionantes, das multidões chorando no enterro de Getúlio,ao som da música que fez com Jards Macalé. São dela aquelesversos: "Todo povo brasileiro chorou/ Morreu o presidente..."Esqueça a segunda frase, concentre-se na primeira. Opovo brasileiro tem sempre motivos para chorar no cinema de AnaCarolina. A trilogia discute a figura da mulher na cultura e nasociedade brasileiras. O homem entra nessa conversa, claro, eeventualmente até ocupa o foco do interesse - como no filmesobre Getúlio e, agora, Gregório de Mattos -, mas em geral AnaCarolina prefere falar sobre mulheres. Ela diz que os homensfilmam as mulheres como imaginam que elas sejam. Ana Carolinafilma na primeira pessoa, como ela e as outras mulheres são.A família é podre em Mar de Rosas, o sistemaeducacional é igualmente falido em Das Tripas Coração e aprotagonista de Sonho de Valsa revela um imaginário dominadopela busca do príncipe encantado para que a diretora apresentesua visão poética do amor, bordejando a condição feminina. Ostrês filmes compõem as memórias de uma moça malcomportada e elaé a própria Ana Carolina, que, em Amélia, inspirando-se napassagem da lendária Sarah Bernhardt pelo Brasil, inverte ComoEra Gostoso o Meu Francês, de Nelson Pereira dos Santos, emostra o colonizador devorando o colonizado. A diretora gosta dedizer que faz cinema para se liberar. Ao soltar seus demônios,ela faz mais do que autoliberar-se. Pensa o Brasil e a questãodo poder, nas relações interpessoais e na política.

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