Ana Carolina assume cinema narrativo com "Amélia"

A diretora Ana Carolina está de volta ao cenário cinematográfico brasileiro. Treze anos depois de seu último filme, Sonho de Valsa, a cineasta lança Amélia, livremente inspirado na visita da atriz Sarah Bernhardt ao Rio de Janeiro em 1905.A francesa Béatrice Agenin, atriz de teatro com longa carreira na Comédie Française, faz o papel da diva. "A Sarah do filme não é biográfica. Para interpretá-la, peguei apenas o reflexo do mito", disse a atriz, em sua recente passagem pelo Brasil.Em Amélia, Ana Carolina encontra uma solução imaginária para a misteriosa tragédia que Sarah Bernhardt viveu por aqui. Quando a artista apresentava a ópera Tosca, no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, as almofadas sobre as quais deveria se jogar no último ato foram retiradas. A queda resultou em uma fratura na perna, que acabou sendo amputada dez anos depois. O acidente nunca foi devidamente esclarecido.Marília Pêra, em participação especial, interpreta Amélia, a fictícia camareira brasileira de Sarah Bernhardt que a convence fazer uma turnê pela América Latina. A artista está desiludida, sente-se abandonada pelo público. A camareira acredita que a turnê possa animá-la. Aproveitando a passagem pelo Rio de Janeiro, Amélia pretende também vender as terras de Cambuquira (Minas Gerais), onde vivem suas duas irmãs. Ao saberem da intenção de venda, Francisca (Mírian Muniz) e Oswalda (Camila Amado) partem para o Rio de Janeiro para encontrar a irmã. Levam consigo a agregada Maria Luiza (Alice Borges).Sarah Bernhardt fica horrorizada com o comportamento "rústico" das mineiras, tão distante dos modos de sua camareira. Acostumadas à pobreza e ao trabalho duro na terra, as irmãs não valorizam os modos "finos" da artistaEste choque cultural costura o desenvolvimento do filme. Para Ana Carolina, Sarah representa a "civilização" entrando em contado com o mundo "não-civilizado". "Escolhi um momento frágil de Sarah. No filme, mostro cinco dias de crise na vida dela", conta a cineasta, que também escreveu o roteiro.Duas Histórias - A idéia de fazer o filme surgiu de uma forma interessante. Ana Carolina já tinha começado a escrever um roteiro, sobre três mulheres pobres, mas estava insatisfeita. Lendo uma reportagem sobre a biografia de Sarah Bernhardt, especialment o trecho que citava sua vinda ao Brasil, ocorreu à diretora fundir as histórias. Surgia então Amélia, que quase se chamou Páscoa em Março. Em 1990, a diretora já tinha contratos de co-produção que permitiam o início das filmagens, mas o desmonte da Embrafilme levou ao adiamento do projeto, retomado apenas em 1995.Depois da trilogia Mar de Rosas (1977), Das Tripas Coração (1982) e Sonho de Valsa (1987), em que a diretora conta histórias mais introspectivas e pessoais, Ana Carolina assume que, com Amélia, finalmente apresenta um longa mais narrativo. "Agora, vou me concentrar na carreira do cineasta que conta histórias. Antes, eu tinha que me apresentar." Entre seus próximos projetos, Ana Carolina pretende fazer um curta sobre a vida de Gregório de Matos, poeta barroco nascido em 1636 e conhecido como Boca do Inferno. Quanto a um novo longa-metragem, ela afirma que pretende começar a filmar em 2001, mas prefere não revelar ainda seu conteúdo. A previsão é de que Amélia seja apenas lançado nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

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