Ana Beatriz Nogueira estréia na direção

Ana Beatriz Nogueira, que ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim/87 por seu desempenho no filme Vera, de Sérgio Toledo, vai participar da Jornada da Bahia em nova função: diretora de cinema. É que seu primeiro curta, Furos no Sofá, foi selecionado para a mostra competitiva.Trata-se de ficção, que a diretora estreante define como "comédia de situações bizarras", estrelada por Christiane Torloni, Renata Sorrah, Sílvia Buarque, Daniel Dantas e Lineu Dias (pai da atriz Júlia Lemmertz, em seu derradeiro trabalho como ator). Desta vez, Ana Beatriz escreveu o roteiro.Seis anos atrás, ela criou o argumento do curta Dois na Chuva e pediu a Alfredo Oróz que o roteirizasse. A direção coube a Miguel Przewodowski e os papéis principais a ela e a Marcelo Serrado. "Para este novo curta criei o argumento, fiz o roteiro e assinei a direção. E evitei acumular atuação com direção."Ana Beatriz foi a segunda atriz brasileira a ganhar o Urso de Prata em Berlim. A primeira foi Marcélia Cartaxo (A Hora da Estrela/86) e a terceira, Fernanda Montenegro (Central do Brasil/98).Ela tinha apenas 19 anos quando recebeu o prêmio no festival alemão, um dos três mais importantes do mundo. Lembra com nitidez as palavras que ouviu do italiano Gian Maria Volonté, Urso de Prata de melhor ator por O Caso Moro: "Parabéns! Ganhar prêmio é muito bom, mas saiba você, que é tão jovem, que nosso ofício é duro, 99% dele é feito de suor." E completou: "O maior prêmio para um ator é receber convite para um novo trabalho."A atriz passou o ano de 1987 correndo os Estados brasileiros e festivais internacionais. Vera participou de vários deles. Ao regressar, recebeu convites de João Batista de Andrade (para atuar em Vlado, filme que contaria a história do jornalista Wladimir Herzog); de Miguel Faria Jr. para Stelinha, e de Neville d´Almeida (o remake de Matou a Família)."Eu estava regressando da França no dia em que a Zélia Cardoso de Mello anunciou o Plano Collor. Não havia mais Embrafilme nem Concine. O cinema brasileiro entrou em fase muito difícil. O projeto de Batista se inviabilizou. A duras custas, Miguel conseguiu realizar Stellinha e Neville fez Matou a Família", relembra.A atriz só voltaria a atuar num filme brasileiro em 1996, já na retomada (Jenipapo, de Monique Gardenberg). Seguiram-se Villa-Lobos, uma Vida de Paixão (que a levou aos festivais de Praga, Moscou, Paris e Huelva), Copacabana, de Carla Camurati; Querido Estranho, de Ricardo Pinto Silva; e dois trabalhos com Paulo Thiago, ambos ligados ao centenário de Carlos Drummond de Andrade (O Poeta de Sete Faces e O Vestido). Está, agora, escalada pela estreante Alice Andrade (filha do Joaquim Pedro) para participação especial em O Diabo a Quatro, em produção.Ana Beatriz conta que já chegaram a lhe perguntar se ela fora vítima de um Urso de Prata precoce. Serena, respondeu: "Não. Fui vítima - como o cinema brasileiro - do governo Collor." Afinal, ela e muitos profissionais de reconhecida competência passaram cinco anos sem fazer um filme que fosse. E isto aconteceu, para a segunda brasileira a ganhar um Urso de Prata, no auge de sua carreira.Mas a atriz não reclama. "Comecei no teatro e segui no teatro. Nunca deixei de trabalhar. Amo o cinema e quero fazer muitos filmes. Era atriz de teatro quando fui para São Paulo disputar o papel de Vera com mais 99 candidatas. Fui escolhida e tive a alegria de, logo na minha estréia cinematográfica, ganhar um Urso de Prata. Prêmio que fiz tudo para honrar."Em Gramado, no dia em que recebeu o Troféu Oscarito, Marieta Severo enumerou as grandes atrizes brasileiras de todos os tempos. Entre as da nova geração, citou Fernanda Torres (Palma de Ouro em Cannes), Ana Beatriz Nogueira e Marcélia Cartaxo. "Marieta é maravilhosa", retribui Ana Beatriz. "Tive a alegria de trabalhar com ela no teatro.""Na TV sou atriz bissexta", constata a atriz. "Fiz bons trabalhos em As Noivas de Copacabana (Dias Gomes) e O Rei do Gado (Benedito Ruy Barbosa), mas o veículo não me convoca com a assiduidade que eu gostaria." Mas avisa que está "muito feliz", pois Gilberto Braga a convocou para o elenco de novela das oito, que ele está escrevendo. Sobre o teledramaturgo, ela comenta: "Gilberto é um autor inteligente, culto e requintado, não vejo a hora de interpretar a personagem que ele criou para mim."

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