'Amour', de Michael Haneke, divide crítica em Cannes

Filme mostra história de amor soturna de um casal de velhos

Luiz Carlos Merten, enviado especial,

20 Maio 2012 | 23h24

CANNES - Jacques Audiard veio filmar na Côte d’Azur porque precisava de sol para contar sua história de um bruto que se redime por amor a uma mulher sem as duas pernas em De Rouille et d’Os. Cannes editou um álbum de fotos para festejar seu 65.º aniversário e aparecem, ao longo do tempo, mulheres belíssimas, em vestidos decotados. Na verdade, nada disso tem respaldo na realidade deste ano. Frio e até chuva tem se abatido sobre Cannes. O clima está mais para a história de amor soturna de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva no novo Michael Haneke.

Em Amour (veja trailer abaixo), eles formam um casal de velhos. Ela sofre dois derrames sucessivos. O corpo entra em declínio e o casal, isolado num apartamento, vive o inferno da própria dor. No limite, ele a agride. Uma cena particularmente bem filmada mostra Trintignant tentando capturar a pomba que invadiu a casa. É uma metáfora da situação do casal.

 

O homem, por amor, isola e asfixia a mulher, recusando toda tentativa "de fora" - da filha, Isabelle Huppert - para interferir na situação. Na coletiva, Trintignant e Riva pareciam o inverso da tela. Ele está muito mal, acabado. Ela permanece rija e a voz... Ninguém é cinéfilo se não amar a Emmanuelle Riva de Hiroshima Meu Amor, de Alain Resnais, recitando aquele texto de Marguerite Duras.

Haneke dividiu a crítica. Para muitos, Amor é um grande filme, para outros, um óvni de um grande diretor. Mas os atores são fantásticos, num festival que tem sido marcado por belíssimas interpretações, masculinas, principalmente. Após um início lento, a programação reagiu e os bons filmes têm sido a regra - bons, não grandes. Thomas Vinterberg conta, em The Hunt, a história de um homem cuja vida desmorona quando ele é acusado de abuso infantil num jardim de infância. Mads Mikkelsen é muito bom no papel, Vinterberg filma bem, mas ele termina mal sua história.

John Hillcoat retoma a vertente de Uma Rajada de Balas, Bonnie & Clyde, de Arthur Penn, em Lawless, que no Brasil vai se chamar Os Infratores. Um filme de gângsteres sobre três irmãos, baseado numa história real. As interpretações (de Tom Hardy, Shia Lazbeopuf, Jason Clarke e Jessica Chastain) são vigorosas e o roteiro (de Nick Cave) tem cenas muito bem escritas. Os irmãos constroem uma lenda na qual acreditam.

Houve uma ruidosa homenagem a Dario Argento, que mostrou seu Drácula em 3-D. O melhor filme, por enquanto, é o romeno Beyond the Hills. Depois de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, Christian Mungiui está de volta em busca da segunda Palma.

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