Amos Gitai é destaque no festival de Locarno

Diretor israelense recebe Leopardo de Honra e cinco de seus filmes estão em exibição no festival

Rui Martins, de O Estado de S. Paulo,

08 Agosto 2009 | 10h15

O filme do cineasta israelense Amos Gitai, Mais Tarde Compreenderás, que estreou em Berlim e foi exibido no Festival de Locarno, tem como atriz principal Jeanne Moreau, perfeita, nos seus 80 anos, no papel da avó judia Rivka, acometida por uma amnésia voluntária sobre as conseqüências do holocausto em sua família.   Essa amnésia, observada por tantos outros judeus sobreviventes, ela só rompeu pouco antes da morte ao levar seus netos a uma sinagoga, onde revelou ser judia, enquanto lhes legava sua estrela de David amarela, usada durante a ocupação nazista na França.   Rivka quis proteger psicologicamente seus netos, já afastados da sua origem de judeus russos na família francesa Bastien e batizados católicos.   Tantos outros fizeram o mesmo, embora muitos tenham começado a falar quando inquiridos por seus netos, já nos anos 80, ou para deixar um testemunho sobre o anti-semitismo nazista, antes de morrer. Outros decidiram falar por ocasião do processo do nazista Klaus Barbie, o chamado açougueiro de Lyon.   "Meu filme é o filme do não-dito, pois muitas vítimas dos nazistas nunca falaram e nem falarão sobre o que viveram", diz Gitai.   Leopardo de Honra   A chuva impediu que o filme fosse exibido ao ar livre no telão da Piazza Grande, porém mais de três mil expectadores foram ao pavilhão coberto Fevi, onde Amos Gitai recebeu seu Leopardo de Honra por sua filmografia, iniciada com uma câmera Super8, quando voava em helicóptero na Guerra do Kippur, tendo escapado da morte quando seu aparelho foi abatido e o companheiro piloto morto.   Amos Gitai é bem conhecido em São Paulo, por já ter participado da Mostra de Cinema. Desde essa época, seus filmes já provocavam controvérsias em Israel, pela maneira de tratar preceitos fundamentalistas da religião judaica ou a crise entre Israel e Palestina e por se colocar em favor da paz como solução. Seu filme Yom Yom termina com o canto de paz, o mesmo que entoava o primeiro-ministro Rabin, antes de ser assassinado por um judeu extremista.   Cinco filmes de Gitai estão passando em Locarno, e um deles, Yom Yom, é bem típico - conta a história de Moshe ou Mussa, filho de pai árabe e de mãe judia, casados ainda na criação de Israel, uma situação mais comum nos dias atuais.   "Depois de meus filmes em Israel, decidi fazer um na França, um retorno à Europa (a família de Amos Gitai conseguiu se refugiar na Suíça e assim escapar ao holocausto) - conta Gitai - essa Europa que tornou tão impossível a vida dos judeus durante o nazismo."   Evitando falar diretamente sobre a questão do conflito com a Palestina, Amos Gitai acentuou fazer um cinema crítico, evitando os aspectos exóticos do conflito, pois "nem sempre o que se vê na televisão sobre o que se passa no pequeno território israelense corresponde à realidade",disse.   "O cinema deve levantar questões, baseado na realidade, e estou contente por ter feito até agora um trabalho coerente num período já bastante longo. Quando fiz meus filmes, como Kadosh, Yom Yom, eles provocaram fortes reações em Israel, e isso faz parte do diálogo. Se os cineastas europeus fizerem bons filmes sobre a imigração, isso provocará reações inclusive das autoridades quanto à política imigratória."

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