Tiziana Fabi/AFP
Tiziana Fabi/AFP

Amos Gitai cria utopia da convivência entre os povos

Diretor israelense exibe em Veneza ‘Ana Arabia’, um belo filme sobre árabes e judeus no Oriente Médio

Luiz Zanin Oricchio - Enviado Especial a Veneza, O Estado de S. Paulo

03 Setembro 2013 | 19h05

Com Ana Arabia, o israelense Amos Gitai se defronta com sua obsessão: a convivência entre árabes e judeus no Oriente Médio. O filme é profundamente humano e um belo exercício de linguagem cinematográfica, feito num único plano-sequência. Quer dizer, não existem cortes, e tudo o que se vê é em tempo real. Da chegada de uma jovem repórter a uma espécie de vila meio precária, situada entre Haifa e Tel-Aviv, até sua partida, transcorrem 84 minutos. Tempo suficiente para que a moça ouça histórias de vários personagens, homens e mulheres, velhos e moços, árabes e judeus, que falam de suas vidas e do que fazem lá.

“A opção pelo plano-sequência único não foi um capricho de diretor. Eu simplesmente não queria interromper o fluxo narrativo entre os personagens porque essa é a essência do projeto”, conta. Gitai é um dos raros cineastas contemporâneos a ter consciência da sua ferramenta de trabalho e de como escolhas estéticas implicam decisões de conteúdo. “O uso do plano sem cortes foi essencialmente político”, acredita.

Sobre sua utopia de uma convivência entre povos de culturas diferentes e de ódios muito arraigados, Gitai responde que a realidade no Oriente Médio é assim mesmo. “Você vai a um hospital e pode ser atendido por um médico palestino. A convivência existe na prática, mas é sabotada por uma intolerância gerada pela ideologia. Onde encontramos de forma melhor essa sabedoria sobre o viver junto? Entre as pessoas mais simples. Foi o que quis retratar no meu filme.”

Numa ficção que se parece muito a um documentário, Gitai não promove qualquer discurso sobre a convivência. Limita-se a registrá-la em ato. Entre os sete personagens principais entrevistados pela repórter interpretada por Yuval Scharf, com as histórias mais variadas, de guerras, sofrimentos pessoais e políticos, emerge a ideia de que as pessoas aprendem a anular diferenças e fanatismos e fundar um meio comum como forma de convivência. Não são as ideologias que fornecem essa sabedoria, as próprias necessidades da vida a ensinam. Como dizia o nosso Guimarães Rosa, o sapo não pula por boniteza, mas por precisão.

Ana Arabia faz parte da seleção da Mostra de Cinema de São Paulo, que acontece em no mês de outubro.

Diva alienígena. Desta vez a deusa hollywoodiana Scarlett Johansson, corpo perfeito, rosto de criança e tida como dona da voz mais sensual do cinema, encarna, simplesmente, uma alienígena. Em Under the Skin, morena, cheia de curvas e de perigo, usa seu corpo como isca para homens dos quais se nutre. A direção é do inglês Jonathan Glazer, uma carreira inteira feita no videoclipe, mas não um estreante em cinema. Já tem alguns filmes na carreira, como Sexy Beast e Birth (Reencarnação). Ok, mas, o visual, o artificialismo com que adapta o livro do holandês Michel Faber, são exasperantes. Debaixo da Pele (Under the Skin) é daqueles filmes que terminam e você se pergunta: e daí?

Já andaram comentando que o público de Veneza está particularmente generoso este ano. Mas nem ele teve paciência com Under the Skin – vaiou sem piedade no final.

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