"Amores Possíveis" estréia em 80 salas no Brasil

Com Pequeno Dicionário Amoroso, a diretora Sandra Werneck conseguiu lotar cinco Maracanãs. Foi como ela definiu os 400 mil espectadores que sua comédia fez em todo o País. Com o novo filme que estréia nesta sexta-feira em 80 salas, numa distribuição da Fox, Sandra espera lotar oito Maracanãs. Ela trabalha com a expectativa de 600 mil espectadores (a capacidade oficial do estádio é de 80 mil lugares - teria de fazer 640 mil). Não chega a ser um número elevado, considerando-se a acolhida simpática ao filme anterior e o prêmio de melhor filme latino que Amores Possíveis ganhou em janeiro, no Festival de Sundance. Sandra joga baixo para não se decepcionar. Prefere ser surpreendida, agradavelmente. Murilo Benício, que faz o protagonista das três histórias contadas por Sandra, atira mais alto. Numa entrevista realizada no Rio perguntou, quase em tom de provocação - por que não 2 milhões de espectadores? Depende de você, leitor. Se gostar, e é provável que sim, recomende o filme aos amigos. Se não gostar, recomende aos inimigos.É um filme autobiográfico, informa Sandra, no sentido de que começa e termina no cinema e esse é o grande amor da vida dela. Mas são mesmo três histórias ou três versões possíveis da mesma história? No livro que está sendo lançado com o roteiro de Paulo Halm, pela Editora Objetiva, há, logo no começo, uma citação que se ajusta ao que Sandra quer dizer. É de Jean-Paul Sartre: "Não importa o que o passado fez de mim. Importa é o que eu farei do que o passado fez de mim." É bom partir do título. Sandra conta uma história de amores possíveis. Conta três possíveis versões do que poderia ter acontecido a partir de uma situação inicial. Logo no começo, sob uma chuva torrencial, Carlos chega ao cinema em que marcou encontro com Júlia. Ela não aparece. E se tivesse ido? Rolam três possibilidades de histórias de amores contemporâneos.Em Pequeno Dicionário, Sandra já falou sobre relações e o fez com graça, com bom acabamento visual. Como ela gosta de dizer "todas as histórias já foram contadas, o que me atrai é a possibilidade de brincar com a forma de narrar." É o que faz a graça de Amores Possíveis, mas desta vez a trama não é não tão leve. O humor está presente, há um evidente cuidado no acabamento técnico-artístico e os atores estão todos empenhados, alguns muito bons. Sandra conseguiu reunir Murilo Benício, Carolina Ferraz, Emilio de Mello, Irene Ravache. Mas há um tom mais dramático em pelo menos uma das versões possíveis da história de Paulo e Júlia.Da cena inicial no cinema, a narrativa parte para três diferentes despertares. A câmera sobe pelas pernas de um casal e o segue no café da manhã. Na segunda história, se você for preconceituoso poderá levar um choque - a câmera sobe por duas pernas cabeludas e flagra não um casal, mas um par. Na primeira história, Paulo não está feliz no casamento (com Maria) quando reencontra Júlia. Na segunda, Paulo abandonou Júlia para assumir sua porção gay, vivendo com Pedro. Na terceira, é um garotão que busca a mulher ideal por meio de uma maquininha. Encontra Júlia, meio riponga. Nessa história, a mulher ideal que Pedro procura está ao lado dele o tempo todo. É sua mãe, interpretada por Irene Ravache.Sandra Werneck gosta de dizer que já deu sua contribuição ao cinema social - quando fez A Guerra dos Meninos, sobre meninos de rua. Hoje, prefere falar de relações, convencida de que o mundo não vai mudar se as pessoas não mudarem, individualmente. Trocou o documentário pela ficção, que lhe parece mais adequada para essa nova fase, e fez outro filme simpático, mais que isso, bom. O humor predomina na terceira história, a segunda é mais dramática. Júlia virou uma mulher amargurada e rancorosa por causa da opção de Paulo. Numa cena eles se encontram numa boate e, em honra dos velhos tempos, dançam Me Dê Motivo. O vozeirão de Tim Maia, o toque dos antigos amantes, tudo compõe uma cena que a diretora considera sua preferida em Amores Possíveis.No dia seguinte, Paulo visita a mulher, o filho chega, os surpreende. Parece que vai ocorrer um recomeço e Sandra vai adotar uma postura moralizante, mas... É bom não falar mais para não tirar a graça que é ver Amores Possíveis, mas vale ressaltar que o diálogo de Paulo com o filho, no fim desse episódio, não é apenas delicado e sensível. É algo que uma diretora só pode fazer quando tem um ator como Murilo Benício em cena. Na apresentação de Amores Possíveis para a imprensa, no Rio - no mesmo cine Odeon, na Cinelândia, onde o filme começa e termina - Marcos Oliveira, diretor-geral da Fox Film do Brasil, não poupou elogios ao profissionalismo de Sandra, ao seu empenho na concretização de um produto atraente para as platéias.Amores Possíveis busca mesmo, assumidamente, o diálogo com o público, mas Sandra não hesita em definir seu projeto de cinema como "autoral". Por maior que tenha sido a contribuição de Paulo Halm no roteiro, do grande Walter Carvalho na fotografia, ela reivindica a autoria desse filme. Você deve vê-lo, ler o livro e ouvir o CD, pois Amores Possíveis surge na tela, nas livrarias e lojas de discos dentro das três possibilidades. Claro que para apreciar o filme na sua totalidade, como obra audiovisual, você terá de ir ao cinema. Só aí encontrará o filme tal como foi sonhado pela diretora, que a ele dedicou os últimos três anos. Mas o livro é legal, entremeado por frases, como essa do escritor Victor Hugo, que também se enquadra no espírito do filme - "Passamos metade da vida à espera daqueles que amamos e a outra metade tentando deixá-los."Como segundo filme brasileiro da Fox, Amores Possíveis sucede a Xuxa Requebra. O avanço é considerável, mesmo que em ambos a opção seja por um cinema comercial - uma opção estética, no caso de Sandra, uma operação caça-níqueis, no da rainha dos baixinhos. E a Fox não pára por aí. Tem um acordo com a empresa Total Filmes para a realização de três projetos. O primeiro deles, já em rodagem, no Rio, é Avassaladoras, de Mara Mourão, com uma dupla que fez sucesso na novela Laços de Família - Reynaldo Gianecchini, o Edu, e Giovana Antonelli, a Capitu. A Total também roda, no Rio, O Filho Predileto, de Walter Lima Jr. com a participação da italiana Ornella Muti. O Filho Predileto é uma co-produção brasileira da Total com a Globo e a Columbia, entrando a Rádio e Televisão Italiana, a RAI, como empresa associada. É o cinema brasileiro ampliando seu espaço, em número e, espera-se, também em qualidade.

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