"Amores Brutos" dá rosto<br>à violência

Vencedor do prêmio da crítica no Festival de Cannes do ano passado (na categoria "filmes fora de competição") e também na Mostra Internacional de Cinema São Paulo, era de esperar-se, até como forma de valorizar o próprio trabalho, que Alejandro González-Iñarritu tivesse os críticos em boa conta. Mas não. É duro com eles. Chama-os de "flojos", no sentido de incompetentes mesmo. "Os críticos, na maioria, são reducionistas que só querem colocar etiquetas nos artistas." O comentário surge a propósito de Amores Perros, que foi indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano. Com o título de Amores Brutos, estréia sexta-feira em quatro salas da cidade.Não perca, sob pena de deixar de ver um dos filmes de impacto do ano. A etiqueta que desagrada a González-Iñarritu é a que os críticos vêm tentando lhe colar desde que o filme passou em Cannes. Ele seria o Quentin Tarantino do México. E Amores Brutos, o Pulp Fiction (Tempo de Violência) mexicano. Outro talvez achasse a comparação lisonjeira. Afinal, Tempo de Violência ganhou a Palma de Ouro, o Oscar de roteiro. Não González-Iñarritu. "Quentin usa a violência para divertir, faz um cinema cheio de referências; o que me interessa é o oposto, a violência real, dar um rosto humano a essa violência; sem isto o cinema não faz sentido para mim." González-Iñarritu diz isso numa entrevista por telefone, da Cidade do México. É um filme sobre a violência urbana, ambientado na Cidade do México, porque é nela que vive o diretor. González-Iñarritu é capaz de teorizar sobre a experiência que é viver na maior cidade do mundo. "Faz com que a gente se sinta parte de um experimento antropológico; são 21 milhões de pessoas com sua diversidade, suas disparidades sociais e as tensões daí decorrentes - as tensões e também o colorido, o fascínio, pois o caos, e a Cidade do México é caótica, não deixa de ser fascinante." A Cidade do México é fundamental, como representação da urbe, mas ele não está convencido de que seja um filme sobre a Cidade do México. Pelo que ele sabe de outras cidades, poderia ser São Paulo, Tóquio, Los Angeles. A metáfora da colisão do carro poderia falar para qualquer uma delas. Cita o escritor Vicente Leñero, que lhe disse que ele conseguiu fazer um filme sobre o caos da Cidade do México sem mostrá-la um só momento. "É verdade; se você reparar, vai ver que o filme é muito claustrofóbico, passa-se em ambientes fechados, opressivos; não há uma só panorâmica para mostrar a cidade como um todo", explica o diretor.A conversa volta a Tarantino para que ele possa contestar outra afirmação dos críticos. Diz que Tarantino é pop e que a sua estrutura tríptica, as histórias independentes que se interceptam no acidente de carro, não tem origem em Tempo de Violência, como tanta gente afirma, mas em fontes mais ilustres. "Será que nunca leram Faulkner, O Som e a Fúria, nem viram Akira Kurosawa, Rashomon? Era eles que eu tinha em mente, não Tarantino." Conta que, sim, desde o começo o roteirista Guillermo Arriaga Jordán e ele conceberam Amores Brutos como um experimento estético. "Queríamos contar essas três histórias, que falam todas de amor, morte e redenção, de diferentes formas, em diferentes estilos; sabíamos que era um risco, poderia resultar em três curtas-metragens agrupados de forma destrambelhada num longa, mas a experimentação estética nos atraía; o roteiro estabelece uma estrutura que eu tinha de transformar num tom, na rodagem e na montagem; creio haver conseguido."Já que Tarantino não é seu mestre, quem é, ou quem são, eles? "Sou promíscuo", diz González-Iñarritu. "Gosto de muita gente e acho que minha visão de cinema e do mundo é resultado de muitas influências." Cita Bergman, Buñuel, Coppola como os diretores que mais lhe interessam, mas faz a revelação que não deixa de ser surpreendente. Não foram eles que despertaram nele o desejo de virar diretor. Confessando-se músico frustrado, González-Iñarritu conta que foi DJ e que o rádio, mais que qualquer outra coisa, despertou nele o desejo de fazer cinema. "Ao contrário do que dizem, é no rádio, e não nos efeitos especiais, que não existem limites para a imaginação." Ele é capaz de teorizar sobre o primado do som sobre a imagem e acha que seu filme expressa isso. Diz que Led Zeppelin, Pink Floyd, David Bowie, esses sim, foram seus mestres. Sem eles, não teria feito cinema, jamais.Admite que fez um filme duro, que pode perder o público nos primeiros dez, 15 minutos. Usa os cães como metáforas das emoções dos personagens. "Não é um filme ensolarado, homens e cachorros são tratados com a mesma brutalidade." Mas ele nega que trate seus personagens de forma desapiedada, como disseram os críticos da revista francesa Cahiers du Cinéma. No fundo, despreza-os. "Gostaria que eles saíssem do seu castelo parisiense e viessem viver um ano na Cidade do México; a vida nas economias periféricas poderia ser uma experiência e tanto para esses senhores; descobririam que desapiedados são eles, que não entendem nossa urgência, nosso desespero, nossa vontade de redenção."Após o desabafo, ele reafirma o que qualquer pessoa mais esperta pode perceber vendo Amores Brutos - é um filme sobre o amor, no contexto de uma guerra civil, e essa guerra, aqui, ocorre na Cidade do México. Há beleza nesse campo de batalha e era isso que ele queria colocar na tela - beleza e violência. Com os dois pés encravados na realidade, cita os surrealistas - a beleza será convulsiva ou não será. Prepara o próximo filme, uma história sobre como devemos perdoar os outros e a nós mesmos. Sabe que Hollywood está de olho nele, mas anuncia - "Só vou para lá se me deixarem levar o México; não quero ser um exótico diretor latino em Hollywood." Na semana que vem, volta ao set. Vai fazer um curta de seis minutos para a BMW, numa série especial para a Internet. Ang Lee, Guy Ritchie, Wong Kar-wai e John Frankenheimer estão no projeto. Vai ser o retorno de González-Iñarritu à publicidade, que ele não renega. "Dirigir comerciais foi um treinamento para mim; o risco é a gente ficar muito preso à aparência e perder a espiritualidade; tenho isso sempre em mente." Fazer um filme para a Internet não o impressiona. Não é fanático pelas novas técnicas. "O que eu quero é pôr gente no meu cinema."Amores Brutos (Amores Perros). Drama. Direção de Alejandro González-Iñarritu. Sexta-feira no Cinearte 1, Sala UOL Lumière 1 e Belas-Artes

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