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'Amor, Plástico e Barulho' é drama psicológico embalado pela música brega

Ambientado na cena do Recife, filme foca no conflito entre a dançarina consagrada e a aspirante

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

28 Janeiro 2015 | 03h00

Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro, ambienta-se na cena da música “brega” do Recife. Isso quer dizer que não importa se você tem simpatia ou não por esse tipo de música. Ela é pano de fundo, quadro de referência para o drama psicológico que envolve duas mulheres em posições antagônicas, Maeve Jinkings (de O Som ao Redor) e Nash Laila (de Deserto Feliz). As duas receberam os prêmios de melhor atriz (Maeve) e atriz coadjuvante (Nash) no Festival de Brasília de 2013. Merecidos, ambos. 

O que a premiação talvez inconscientemente comente é a força propulsora do drama. A personagem de Maeve chegou ao topo do seu universo. A de Laila não se conforma em ser coadjuvante e aspira à posição principal. Esse drama da competição já gerou vários filmes famosos e o que ocorre ao cinéfilo, de maneira mais imediata, talvez seja A Malvada, de Joseph Mankiewicz, que opunha Bette Davis a Anne Baxter. A atriz consagrada e a aspirante a atriz. A iniciante que, sob pretexto de servir à estrela, preparara-lhe uma bela puxada de tapete.

Essa matriz dá coerência ao longa. Porém, o que lhe dá consistência é a maneira quase documental como imerge nesse ambiente, visto com muito preconceito pela classe média dita educada. Vamos lá – as músicas estão longe da excelência harmônica e melódica de uma bossa nova, digamos. Os versos podem parecer plastificados ou mesmo toscos. No entanto, os sentimentos por trás dessa forma simplória são tão intensos como em qualquer obra sofisticada. 

E os modos de competição, idem. Não há diferença, nem em métodos nem objetivos, da maneira como se compete, seja no ar refrigerado do mundo corporativo, seja na cena brega do Recife. Por isso faz todo sentido que Shelly (Nash Laila) seja uma jovem dançarina cujo sonho é se tornar rainha do brega. De certo modo, seu modelo supremo será Jaqueline (Maeve Jinkings), que chegou ao topo, mas não tem muita segurança de que permanecerá por lá. 

De fato, nesse ambiente (e em quase qualquer outro no mundo atual), nada é para sempre. Atinge-se a fama (mesmo que seja essa fama restrita de bandas de brega, que se apresentam em prostíbulos ou barzinhos), luta-se para chegar ao topo, mas existe sempre alguém disposto a lutar pelo lugar. O filme de Renata Pinheiro ilustra, de maneira deslocada para o âmbito individual, a frase famosa de Marx, “tudo que é sólido desmancha no ar” (que forneceu o título ao livro famoso de Marshall Berman). Tudo é precário e provisório. Da fama e do posto conquistado, aos amores e sentimentos – tudo passa rápido e parece impossível de ser preservado. 

Daí a melancolia da perda, que perpassa o filme e se expressa numa sequência notável. É quando Jaqueline canta, a capella, um sucesso brega, Chupa que é De Uva, com letra bem a gosto do gênero, cheia de duplos sentidos e alusões sexuais. No entanto, ela a interpreta como se fosse a mais pungente canção de Billie Holliday. Uma canção de despedida, de consciência da morte e da finitude, embalada numa letra cheia de insinuações eróticas, que, no entanto, se desconecta de sua finalidade pela maneira como é interpretada pela cantora. Metáfora deslocada de tudo o que diz e sente esse belo filme. 

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