Amor, justiça e morte estão nas estréias de cinema

Quatro filmes de fora dos Estados Unidos estréiam hoje, no mesmo dia em que a superprodução Homem-Aranha 2, que promete bater os recordes de bilheteria de seu original, de 2002. Fora do padrão de Hollywood, são filmes de qualidade, que falam de amor, justiça e morte. Lugares Comuns, é uma co-produção de Argentina e Espanha. Estranhas Ligações é um projeto conjunto de França e Espanha. Adanggaman vem da Costa do Marfim, e Corações Livres, da Dinamarca. Estréia hoje Lugares Comuns, do argentino Adolfo Aristarain. No filme, Federico Luppi é aposentado compulsoriamente. É professor e poderia continuar lecionando, se não fosse inimigo político do diretor da escola. Com a aposentadoria, vem o descenso social. Luppi e a mulher, a extraordinária Mercedes Sampietro, reduzem todos os custos e, mesmo assim, o dinheiro não dá. É um filme sobre seres e famílias disfuncionais, que encerra uma linda reflexão sobre o afeto que redime. Mercedes Sampietro foi premiada como melhor atriz em vários foros internacionais, incluindo o Festival de Gramado. O roteiro, do próprio Aristarain, também acumulou prêmios em todo o mundo. E o filme, ao contrário do que pode sugerir o título, não tem nada de banal. O problema, se pode ser considerado um problema, é que se trata de um filme sobre gente velha, num mundo cada vez mais formatado para os jovens. Lugares Comuns é sobre pessoas de certa idade, mas não é um filme velho. Mostra a vida como talvez gostaríamos que fosse e como é.Estranhas Ligações - O filme Estranhas Ligações (no original Carnages, que poderia ser traduzido como ´carnificinas´) também estréia hoje, com cenas da vida européia, misturando elementos das culturas francesa e espanhola. Dirigido pela estreante Delphine Gleize, o filme venceu o Prêmio da Juventude no Festival de Cannes de 2002. Assim como o diretor americano Robert Altman, Delphine também segue diversos personagens - uma vendedora deprimida, um toureiro que está em coma, uma menina epilética, uma parturiente que carrega vários (quantos?) bebês em seu ventre. Para juntar todas essas histórias, ela lança mão de um recurso inusitado - cada trama, ou personagem, está ligado às partes do corpo de um touro que foi sacrificado na arena. Patas, orelhas, cabeça - de que forma isso compõe uma trama única é coisa que você só saberá assistindo a este filme que dividiu a crítica francesa. Dogma - Corações Livres é um filme do Dogma que subverte as próprias regras do movimento dos monges-cineastas dinamarqueses. O filme termina com uma melosa canção que mais ou menos resume o sentido da trama imaginada pela diretora Susanne Bier, o que contraria os princípios do movimento. É um filme de amor, sobre relações. Começa com um homem que pede uma mulher em casamento. No minuto seguinte, ele é atropelado e fica paralítico, impossibilitado de cumprir as promessas de amor (e sexo) que fez na cena anterior. A mulher que o atropelou pede ao marido que dê assistência àquela cujo casamento impediu, mesmo que involuntariamente. O marido fica amante da outra, a filha descobre, a mulher também. O casamento desmorona. No fim, nada se resolve, para ninguém, sendo esta, talvez, a tese que a diretora quer defender - isto no caso de, realmente, existir uma no filme. Não é um filme sobre o erro, mas sobre a forma como o amadurecimento pode vir por caminhos tortuosos.Adanggaman - Existe uma maneira hollywoodiana de contar histórias. Por força do domínio que a produção americana exerce sobre os mercados de todo o mundo, tende a ser encarada como única. Não é. Há outras maneiras de narrar no cinema, como no filme africano Adanggaman, que também estréia hoje, assinado por um cineasta da Costa do Marfim ainda desconhecido no Brasil, Roger Gnoan M´Bala. O título estranho refere-se a um rei negro que vendia africanos para traficantes americanos no século 17 (e terminou ele próprio escravo em New Orleans, negociado por um de seus lugares-tenentes). A proposta de Adanggaman é dar voz aos que não a têm. Não por acaso, no fim, o filme é dedicado aos africanos que morreram como escravos e aos seus descendentes que carregam as cicatrizes de um sofrimento ancestral.

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