Lucas Jackson/Reuters
Lucas Jackson/Reuters

'Amo a minha pele e principalmente a minha história', diz Viola Davis

Após ser indicadas três vezes ao Oscar, atriz finalmente conseguiu a estatueta por atuação em 'Um Limite Entre Nós'

Ubiratan Brasil, ENVIADO ESPECIAL

04 Março 2017 | 16h00

LOS ANGELES - Os ânimos ainda estavam exaltados por causa da confusão da troca de envelopes, que tirou o Oscar de melhor filme de La La Land para entregá-lo a Moonlight, quando Viola Davis entrou na sala da imprensa, no Dolby Theatre, quando já era madrugada de segunda, 27, no Brasil. Deslumbrante em seu vestido vermelho Armani, ela carregava com segurança o Oscar de melhor atriz coadjuvante por Um Limite Entre Nós, como assim foi traduzido o longa Fences, em cartaz em São Paulo. Foi sua terceira indicação para o prêmio, mas Viola parecia mais do que nunca preparada para receber a estatueta. “Rose sempre me desafiou. Ela é o tipo de personagem que consegue permanecer em paz mesmo ostentando uma história tão dolorida”, comentou.

Rose é a protagonista de Um Limite Entre Nós, uma mulher que, nos anos 1950, divide sua humilde casa com o marido Troy (Denzel Washington) e o filho mais novo, Cory (Jovan Adepo), na cidade de Pittsburgh. Troy trabalha como coletor de lixo e busca a promoção para motorista do caminhão que carrega os dejetos - a função, ele observa logo no começo do filme, sempre é executada por homens brancos. Aos 53 anos, Troy é um senhor amargurado, pois não realizou o sonho de ser um jogador profissional de beisebol por causa da cor de sua pele. E agora tenta impedir que o filho se torne esportista, o que deixa o jovem revoltado porque ele está prestes a ser avaliado por um observador de futebol americano.

O roteiro é inspirado na peça do americano August Wilson (1945-2005), que rendeu a Viola o Tony (o Oscar do teatro americano) de 2010, depois de encená-la em 114 apresentações. “Rose me ensinou algo parecido que aprendei com minha mãe que, apesar da vida muito difícil, transbordava de amor. Essa é a nossa rotina: fatos ruins acontecem, também os bons, mas você tem que ter força todos os dias.”

A referência aos pais Dan e Mary Alice Davis provoca emoção em Viola. A atriz se lembra de uma frase determinante da mãe: “Sei diferenciar entre um ator e um mero contador de histórias”. “Carrego isso comigo. Meus pais não foram aqueles pais de artistas, que queriam realizar seus sonhos através dos filhos. Eles me deram liberdade para escolher minha vida e voar como bem quisesse.”

 

Viola conta que, pela primeira vez, consegue falar sobre seu passado sem chorar. Mas, surpreendentemente, vai às lágrimas. “Cresci na pobreza, em apartamentos condenados e infestados de ratos, mas, mesmo assim, sempre quis ser alguém, ser boa em algo. E isso é uma espécie de milagre de Deus: sonhar grande e esperar que isso mova montanhas. E isso realmente acontece.”

O texto de August Wilson retrata essa mulher forte, por vezes contemporizadora, colérica em outras situações, mas o dramaturgo toca na ferida ao tratar abertamente de preconceito. “O que adoro no trabalho de August é a liberdade que ele dá para as pessoas de cor falarem. Sem didatismo. Não nos mostrando como uma mensagem social ambulante, apenas apresentando a beleza de viver. O público nos ama quando representamos algo. Eu só quero me representar: vivendo, falhando, levantando de manhã e, por que não?, também morrendo. Denzel também percebeu isso ao ler o roteiro e disse: ‘É sobre isso que quero falar’.”

São personagens assim, acredita Viola, que a tornam mais forte, confiante, apesar do momento social ainda conturbado. “Amo minha história”, afirma. “Amo o fato de poder olhar para trás, para a história de tantas mulheres diferentes que se foram antes de mim e cujas histórias aparentemente não deveriam ter sobrevivido, mas, sim, resistiriam. E amo minha pele, minha história. Às vezes, não gosto de ser uma porta-voz o tempo todo, mas, o que fazer? Assim seja. Aos 51 anos, estou me amando muito.”

Apesar de muito aguardado, o Oscar que carregou durante toda a noite, inclusive nas diversas festas em que compareceu depois da conturbada cerimônia, tornando-se a figura principal logo ao chegar, não vai mudar sua rotina - Viola garante manter uma vida sem mistérios, comendo macarrão com queijo, lavando os cabelos da filha nos finais de noite. “Não é meu estilo acordar toda manhã pensando ‘Sou uma ganhadora do Oscar’. Prefiro valorizar mesmo é a profissão de artista, a única que celebra o ato de viver.”

A afirmação incentivou um jornalista a questioná-la sobre o tipo de história que prefere contar. Viola retomou o discurso que iniciou ainda no palco, ao receber a estatueta. “Digo que gosto de exumar esses personagens e as histórias daquelas pessoas que sonharam grande e nunca viram esses sonhos se concretizarem.”

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