Amigos e personagens se despedem de Coutinho

Documentarista, morto a facadas no domingo, foi enterrado na tarde desta segunda, 3, no Rio

Roberta Pennafort e Thaise Constancio, Rio - O Estado de S. Paulo

03 de fevereiro de 2014 | 19h33

Cineastas, produtores, atores e personagens revelados nos filmes de Eduardo Coutinho uniram-se em longos aplausos ao documentarista em seu sepultamento, desta segunda, 3, no Rio. Na despedida, foi cantado trecho de My Way, o sucesso de Frank Sinatra que se tornou um dos pontos altos de Edifício Master, de 2002.

 

 

 

 

 

Maior nome do documentário nacional, Coutinho, segundo a polícia, foi assassinado a facadas no domingo pelo filho, Daniel, que entrou em surto e atacou também a mãe e em seguida tentou se matar. Os dois estão internados na mesma Unidade Intermediária do Hospital Miguel Couto; o quadro deles é estável. Daniel teve a prisão decretada pela Justiça.

A professora aposentada Vera Lúcia Maciel Savelle, moradora do Edifício Master – microcosmo de Copacabana que rendeu a Coutinho um de seus filmes de maior apelo popular –, lembrou com saudade do período de gravações e contou que uma réplica do Kikito ganho no Festival de Gramado daquele ano ficou no prédio. “Não havia separação entre ele e nós moradores, todos nos divertíamos muito. Antes dele, nosso prédio era uma bagunça e hoje é um condomínio quatro estrelas”.

A artesã Fátima Gomes Pereira, que participou dos filmes Babilônia 2000 (de 2001) e Canções (2011), muito emocionada, contou que se tornou amiga de Coutinho, a quem chamava de “velhinho”. “Ele sempre me chamava para cantar. Nos encontrávamos nas estreias dos filmes e depois saíamos para beber. Era uma pessoa muito boa.” Fátima conheceu a família Coutinho, mas não mantinha contato com eles. “Para mim, o filho (Daniel) era uma pessoa legal. Foi lamentável.”

Colegas do meio cinematográfico que conviviam com Coutinho descreveram a relação dele e do filho como normal, apesar dos conflitos causados pelos distúrbios de Daniel e pelo consumo de drogas. Ele mantinha os problemas de Daniel no âmbito familiar – evitava comentá-los até com os mais íntimos. O pai buscava ajudá-lo empregando-o nas equipes de filmagem, mas as tentativas sempre acabavam frustradas.

Compaixão. Amigo de cinco décadas, o produtor Luiz Carlos Barreto pediu “compaixão por Daniel”. “Ele terá uma vida difícil. Espero que sobreviva. Não vamos desejar o mal porque acho que o Coutinho teria esse desejo de ver esse filho amado curado. Acho que ele não leva nenhuma mágoa porque o Coutinho tinha muita compaixão. Dói, porque ele partiu de uma maneira trágica e traumática.”

A diretora de teatro Bia Lessa, próxima dele há 30 anos, sinalizou que ele se mantinha firme mesmo nos momentos de crise. “Ele era um resistente, um alicerce. Não questionava essa situação, apenas aceitava.”

O poeta Ferreira Gullar se disse chocado com a crueldade do crime. “Foi brutal. Coutinho era a última pessoa do mundo que deveria ser assassinada. Eu passei por algo semelhante na família (ele teve dois filhos esquizofrênicos) e sei como é. Ele era uma pessoa discreta, delicada, um amigo afetuoso e leal. Para o cinema é uma perda grande, pois dificilmente vai aparecer outro”.

O diretor de fotografia Walter Carvalho também o conheceu nos anos 60 – o irmão dele, Wladimir, foi assistente de Coutinho no início das filmagens de Cabra Marcado para Morrer, em 1964. “As reuniões com os camponeses eram na minha casa, em João Pessoa. Era um homem de vanguarda. Tudo o que tenho a dizer são as últimas palavras de Hamlet: o resto é silêncio.”

Coutinho fez 80 anos em 2013. Este seria um ano significativo em sua carreira, pelos 50 anos do começo das filmagens de Cabra (interrompidas pela ditadura militar), e 30 de seu lançamento. Ele estava preparando os extras do DVD que será relançado pelo Instituto Moreira Salles.

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