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Ambição atrapalha Jia Zhang-ke no filme 'As Montanhas se Separam'

Obra com narrativa em três partes é a mais fraca do diretor chinês

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 de junho de 2016 | 16h00

Walter Salles gosta de contar como ficou impressionado com o primeiro longa de Jia Zhang-ke, Um Artista Batedor de Carteiras. Jia começava sua trajetória pelo Festival de Berlim, Salles ganhou naquele ano o Urso de Ouro (1998) com Central do Brasil. Iniciou-se ali uma amizade, baseada na admiração e no respeito mútuos. Resultou no documentário Jia – O Homem de Fenyang, que Salles mostrou em Berlim, no ano passado. Seguindo o cineasta com sua câmera pela China, o diretor brasileiro revelava a intimidade do colega chinês e expunha seu projeto – toda a obra de Jia Zhang-ke carrega o desejo de dar um testemunho moral sobre a história da China. Plataforma, O Mundo, Em Busca da Vida, Um Toque de Pecado retratam as transformações ocorridas na China.

As Montanhas se Separam, que estreou na quinta-feira, 23, deveria ser o ápice desse testemunho, mas algo não deu certo porque o filme, bem ambicioso, termina sendo o mais fraco de Jia.

Talvez seja a estrutura ficcional, com base no melodrama. Talvez seja a narrativa em três partes, cobrindo o ingresso do país no terceiro milênio e avançando até 2014, para depois saltar no tempo até 2025. Talvez seja o fato de as duas primeiras partes serem dominadas pela persona de Zhao Tao, a musa (e companheira) do autor. Na terceira, ela some e As Montanhas se Separam claramente se ressente disso. O final ‘para cima’, se era para ser um efeito, não obteve o impacto que Jia sonhava e ele teve duas piores críticas em Cannes.

As Montanhas começa em 1999, às vésperas da chegada do mítico ano 2000. Zhao Tao faz a protagonista dividida entre dois homens, um mineiro e um empreendedor que percebe as novas oportunidades oferecidas pela China ‘capitalista’. Ele é bem-sucedido, vira um empresário, um homem rico, mas não é bem por isso que Zhao o prefere. Casam-se e têm um filho que o pai chama de – acredite! – Dólar. No segundo segmento, o casal se separou, Dólar vive com o pai e sua nova companheira, mas aí as contradições da sociedade chinesa já estão atingindo o capitalista e ele passa a sonhar com a Austrália. E é lá que se passa a terceira parte, final. Dólar vira o protagonista e suas atribulações (financeiras, amorosas) não são muito interessantes, ou então Jia não se sente confortável filmando em inglês.

A ideia é clara – um amplo painel histórico e social sobre essa China que flerta com o Ocidente e, por isso mesmo, o filme começa e termina com os Pet Shop Boys. Go West! na trilha. “We will fly só high/Tell all our friend goodbye/We will start like new/That’s what we’ll do.” E talvez seja esse o problema. No parque temático de O Mundo, já havia aquele flerte com o Ocidente, representado pelas réplicas da Torre Eiffel, do Coliseu, do Big Ben, mas os personagens permaneciam ligados a suas raízes. Aqui eles vão para o mundo e se perdem. Alienam-se. Dólar, o garoto, não produz a mesma empatia de outros heróis de Jia atropelados pela marcha da história na China. É como se Jia, de repente, resolvesse exercitar um lado ‘antonionesco’ – de Michelangelo Antonioni – que nem se sabia que podia existir em seu cinema. Sorry, Dólar. Antonioni houve somente um. Talvez dois – o brasileiro Walter Hugo Khouri.

Mas os três movimentos compõem um quadro. A deterioração da paisagem, com o triunfo do capitalismo a qualquer preço – a China é um dos países mais poluídos do mundo; volta e meia soa o alerta vermelho do controle do ar em Pequim –; o acerto de contas e a derrocada do trio inicial; e a projeção futura, mesmo que na Austrália, de uma sociedade disfuncional, distópica. Hollywood tem feito vários filmes, e o mais recente é Independence Day – O Ressurgimento, para celebrar o alinhamento com a China. O único mérito de As Montanhas se Separam é sugerir, não mostrar que não dá certo.

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