"Amarelo Manga": chegou a vez do público

Cláudio Assis é um pernambucano sem papas na língua. Diz o que pensa e seu primeiro longa, Amarelo Manga, que estréia hoje, é como ele. Não deixa nada pela metade e não usa eufemismos. Os personagens vivem na região central do Recife e nada têm de bonzinhos. Aliás, Assis, que nasceu em Caruaru, acha que tratar o povo com paternalismo é um desrespeito. Abaixo, trechos da entrevista que ele concedeu ao Estado.Os seus filmes em geral são provocativos, polêmicos. É uma proposta como cineasta?Cláudio Assis - Olha, a minha origem é o cineclube. Os filmes que eu gostava eram os que me inquietavam e é isso que eu procuro fazer agora, como cineasta. Quando você sai do cinema, e vai para casa, tranqüilo, como se nada tivesse acontecido, pode estar certo: o filme não presta. O cinema precisa provocar, denunciar. Arte não é para discutir psicologismo, draminhas íntimos. Quem quiser isso, que pague o psicólogo.É para discutir o quê, então?Discutir as relações humanas, do ponto de vista do social. A condição humana no Brasil de hoje. Na contramão da Globo, que pinta essa gente bonitinha. A condição social do brasileiro, todo mundo sabe, é outra.Um traço interessante do seu cinema é que os personagens são tratados sem nenhum paternalismo. Retrata gente do povo, mas não passa a mão na cabeça de ninguém.Os personagens não são bonzinhos. Ninguém é coitado. Todo mundo quer respeito, quer dignidade, quer ser tratado como é. Detesto quem vê o povo de maneira paternalista. No fundo, desprezam o povo. No meu filme tem necrófilo, adúltero, homossexual. Todos tratados com respeito e não se escondendo. Isso não quer dizer retratar os personagens como coitadinhos. Isso é falso. Na vida não é assim. Um quer comer o outro.Você não gosta de falar de suas referências. Não tem influências?Não é isso. Sofro influência de todo mundo. Não tenho é modelo. Tem cineasta que antes de começar a filmar fica assistindo aos seus filmes favoritos. Isso não dá certo. Eu processo esse monte de influências, como um filtro, e me esqueço delas. Não acho que estou inventando a roda, porque tem sempre alguém que já fez alguma coisa antes. Mas ninguém faz nada igualzinho aos outros. Meu cinema é meu, apesar de adorar Fellini, Buñuel, Kubrick, Candeias. São gênios. Não vou imitar.Como é seu sistema de filmagem?Odeio story board, excesso de planejamento. O filme se faz na hora, criando, e em conjunto. Obra coletiva, do diretor, do montador, do fotógrafo, do diretor de arte, do elenco. Se ficar muito preso a esquemas, não sai nada que preste. Gosto de planos-seqüências, contínuos, em tempo real. Sabe por quê? Porque se estiver ruim, se tiver erro, se o diálogo for artificial, tem que jogar tudo fora, não se salva nada.Na quarta-feira você mostrou o filme ao presidente Lula no Palácio da Alvorada. O que ele achou?Ele falou uma coisa que me agradou muito. Disse que o filme mostrava um Brasil que muita gente fazia questão de não ver. Tem gente que acha o filme chocante. Nem o Lula nem a primeira-dama se incomodaram. Disseram que o filme era forte, não pesado. E o Lula também disse que ficava satisfeito ao ver um filme feito fora do eixo Rio-São Paulo, com gente de todos os cantos do País. Um filme brasileiro, para valer. Todo mundo está gostando do Amarelo Manga. Onde foi que eu errei?Amarelo Manga. Drama. Direção de Cláudio Assis. Br/2002. Duração: 100 minutos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.