Altman celebra valores da América, com nostalgia

Os filmes mais recentes de Robert Altman decepcionaram. O último, sobre dança, era ruim, The Company. O anterior, o superestimado Assassinato em Gosford Park, era uma diluição do clássico A Regra do Jogo, de Jean Renoir. Nos bons como nos maus filmes, Altman sempre fez o que sabe e gosta - solta a câmera entre diversos personagens para criar cenas da vida. O conceito é o mesmo em A Prairie Home Companion, mas desta vez Altman acertou. Berlim assistiu a seu melhor filme em anos. Marca um retorno à vertente de Nashville, de 1975, a obra-prima do diretor. Com Meryl Streep no elenco.O título é o mesmo do programa de rádio de Garrison Keillor, ouvido por mais de 4 milhões de pessoas no interior dos EUA. Cobre principalmente o Meio-Oeste e atinge parte da Europa, a Austrália e a Nova Zelândia, num total de 35 milhões de ouvintes. No ano passado, o programa completou 30 anos e o próprio Keillor escreveu o roteiro que Altman filmou, sobre os bastidores do último programa que vai ser apresentado, pois o teatro que o abriga será demolido e Keillor (na ficção) está sendo compulsoriamente aposentado. Cruzam-se as histórias de vários personagens. As irmãs cantoras Meryl Streep e Lily Tomlin, a dupla de caubóis cantores Woody Harrelson e John C. Reilly, um detetive particular que tem o nome óbvio de Guy Noir (Kevin Kline) e uma mulher fatal, travestida de anjo da morte, que passeia pelo filme, toda de branco, para assinalar o fim de uma época (Virginia Madsen). Altman, de 82 anos, diz que o cinema é parte importante de sua vida e o mantém ativo. Mas ele está alquebrado, A Prairie Home Companion parece uma despedida. Talvez não seja ainda a do autor Altman, mas com certeza é a de uma certa América. George W. Bush, governa com apoio da América profunda. Por conta disso, seus opositores vêem só os defeitos dessa América reacionária. O filme celebra, com nostalgia, os seus valores, as suas melhores qualidades. Meryl Streep diz ter orgulho do filme e do que representa. No fundo, é um signo de esperança num país mítico que ainda existe em alguma parte, soterrado pelo que ocorre hoje nos EUA. Era um sonho de Meryl trabalhar com Altman e não se intimidou ao saber que teria de cantar. Já havia feito isso em Ironweed, de Hector Babenco, mas lá era o canto desafinado e desesperado de uma bêbada que não vê saída em sua vida. Aqui, ela canta mesmo - e muito bem. "Não sabia que ela era atriz; contratei-a porque pensava que ela era cantora", brincou o diretor. Falando sério, ele disse que, sem fazer nenhuma referência explícita à política, é ela que dá o tom de A Prairie Home Companion. "Toda obra é sempre política, na medida em que carrega um comentário sobre a época em que foi feita." O Iraque não é citado, mas há um comentário sobre as coisas que podem piorar e a necessidade de resistir que se aplica à situação. "Não é preciso ir à frente de combate para condenar a guerra." O fato de fazer seu filme assim não significa que esteja criticando George Clooney, que produz, dirige, interpreta e co-escreve Boa Noite e Boa Sorte e co-produz e interpreta Syriana, de Stephen Gaghan. "George merece respeito por sua coragem e acredito que colhe os frutos do seu excelente trabalho, mas existem outras formas de se fazer política." Grande Altman. O octogenário pode sentir o peso dos anos no físico, mas a energia mental é irretocável. Qual é o segredo? "Eles" - Altman refere-se aos atores. "Gosto de me cercar de gente talentosa porque são eles que fazem os filmes. Só coloco a câmera", diz, com falsa modéstia. Está feliz da vida com o reconhecimento que vai ganhar da Academia de Hollywood - um Oscar de carreira. "É melhor um Oscar por uma vida inteira de trabalho do que por um filme, apenas."

Agencia Estado,

14 de fevereiro de 2006 | 17h28

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