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Almodóvar realiza obra-prima intrigante e perturbadora

Em 'A Pele que Habito', que estreia hoje no Brasil, diretor resgata parceria com Antonio Banderas e lhe extrai uma das melhores interpretações de sua carreira

Marcio Claesen, estadão.com.br

04 de novembro de 2011 | 08h56

Qual a fronteira que separa um médico de ser um visionário ou um maníaco? O cinema está repleto de exemplos de pessoas que em nome de um suposto avanço para a humanidade tentaram, sem conhecer limites, levar a cabo seus experimentos. Em A Pele que Habito, Pedro Almodóvar, um dos maiores especialistas em criar mulheres descompensadas, concebe o seu "cientista maluco".

A obra, considerada por muitos um filme de gênero - um thriller -, entretanto, deixa evidente que a argamassa do diretor espanhol continua lá, o melodrama. Ele é a base de seu 18º longa que estreia no Brasil nesta sexta-feira, 04.

O Dr. Robert Ledgard (Antonio Banderas) é um cirurgião plástico nascido no Brasil que se tornou um dos mais respeitáveis nomes de sua área. Ledgard está obcecado em criar uma nova pele, uma pele artificial transgênica. Sua cobaia é Vera (Elena Anaya), prisioneira de El Cigarral, o misto de mansão e laboratório do médico.

 

Vera é monitorada o tempo todo através de câmeras pelo médico e pela governanta Marilia (Marisa Paredes), que criou Ledgard como se seu filho fosse. Qualquer informação mais específica que vá um pouco além disso seria estragar o prazer do espectador de desvendar essa trama de mistérios e sangue.

O sangue, aliás, está mais nas elipses do que é mostrado na tela, como lembra Almodóvar no material de divulgação do filme. O diretor conta que após pensar várias vezes em apresentar A Pele que Habito como um filme mudo e em preto e branco, acabou partindo da premissa de impor uma narrativa rígida, livre da retórica visual e não totalmente sangrenta.

Hitchcock, Buñuel e Georges Franju são influências declaradas por Almodóvar e mitos homenageados em A Pele que Habito, que saiu do último Festival de Cannes sem prêmios e dividindo a crítica. O longa não tem uma Penélope Cruz cantando a música título do filme ou uma Cecilia Roth reencenando um espetáculo que marcou sua trajetória, mas nem por isso deixa de emocionar. Sua emoção é mais calculada, é verdade, e não transborda como na maior parte da filmografia do diretor. "Ele está mais austero", já adiantava Antonio Banderas em entrevistas a respeito de seu "mestre".

E é Banderas um dos melhores presentes que o diretor oferta ao público com seu novo longa. Após 20 anos atuando em vexames como Nunca Fale com Estranhos (1995), Pecado Original (2001) e A Lenda do Zorro (2005), o ator volta a trabalhar com Almodóvar, o responsável por carimbar seu passaporte a Hollywood após ótimas parcerias nos anos 1980 - a última colaboração de ambos foi em Ata-me, de 1990.

 

Com essa nova produção, Almodóvar nos lembra que Banderas sabe atuar e bem. "Ele sempre pedia 'menos' para Banderas", contou Marisa Paredes em entrevista ao Estado. Deu certo. Ao fugir do histrionismo, o ator espanhol ficou no mesmo tom do longa e criou nuances desconcertantes para sua espécie de Dr. Frankenstein.

O diretor ousa ao fazer de A Pele que Habito uma mistura realçada pelo terror, nos privando das situações cômicas e delirantes que lhe fizeram a fama, com uma trama construída de forma rigorosa e que custa a envolver. Para muitos, esse é o ônus que ele deverá carregar. Por outro lado, ele apresenta uma narrativa coesa, surpreendente. Por meio da vingança, o médico de Banderas ultrapassou seus limites. Por meio da ilusão do cinema, Almodóvar entrega uma obra perturbadora, e tem-se um de seus melhores momentos. E em se tratando do gênio espanhol, não é pouca coisa.

 

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