Yara Nardi/ Reuters
Yara Nardi/ Reuters

Almodóvar fala sobre desenterrar o passado em ‘Mães Paralelas’

'Me interessei em contar essa história por meio dessa mãe, porque ela procura a verdade da memória histórica espanhola', explica o diretor

Entrevista com

Pedro Almodóvar

Jake Coyle, AP

24 de dezembro de 2021 | 12h00

NOVA YORK - Pedro Almodóvar tem a teoria de que seus filmes com protagonistas masculinos, como o semiautobiográfico Dor e Glória, de 2019, são mais sombrios e obscuros.

“Inevitavelmente, olho para dentro de mim mesmo quando tenho de falar sobre personagens masculinos”, diz o cineasta de La Mancha.

Mães Paralelas, que a Sony Pictures Classics estreia nos cinemas dos Estados Unidos nesta sexta-feira, 24, leva Almodóvar de volta ao terreno mais melodramático. Penélope Cruz e Milena Smit interpretam duas mães solo que se conhecem no hospital onde suas filhas recém-nascidas são acidentalmente trocadas ao nascer.

Esse segredo se desdobra de maneiras imprevisíveis enquanto o filme também investiga outro passado oculto: as valas comuns da Guerra Civil Espanhola.

Nos últimos anos, um diálogo nacional na Espanha despertou interesse renovado e discórdia política sobre a exumação dos túmulos do regime de Francisco Franco, que começou com a guerra civil dos anos 1930 e terminou com sua morte em 1975. Os restos mortais de cerca de 19 mil de algo em torno de 114 mil vítimas foram recuperados nas últimas quatro décadas.

Mães Paralelas não será tão autorreflexivo quanto o último filme de Almodóvar, mas é o mais politicamente introspectivo do diretor de 72 anos mais e o primeiro a lidar com o legado do governo franquista. Almodóvar emergiu como cineasta nos anos da Espanha libertada pós-Franco.

Quando Mães Paralelas foi exibido este ano no Festival de Cinema de Nova York, Almodóvar se encontrou com o jornalista em um hotel no centro da cidade, onde falou numa mistura de espanhol e inglês, com a ajuda de um intérprete, sobre um filme que, assim como sua obra-prima de 1999, Tudo Sobre Minha Mãe, concentra-se principalmente na maternidade.

“Não sei quantas mães farei no futuro, mas elas continuam sendo das minhas personagens favoritas na sociedade”, disse ele, “porque você pode fazer mil filmes diferentes, em mil gêneros diferentes”.

As respostas foram editadas por motivos de brevidade e clareza.

Durante a pandemia, além de Mães Paralelas, você fez o elogiado curta-metragem A Voz Humana’. Sua perspectiva sobre o cinema mudou nos últimos dois anos?

Não exatamente. Quer dizer, acabou contribuindo para minha necessidade de escrever e dirigir filmes. E, curiosamente, me deixou mais consciente da solidão em que vivo. Porque a solidão, apesar de estar em confinamento, era algo que já vivia nos últimos tempos. Creio que agora estou superando a solidão, saindo um pouco mais, saindo para comer com os amigos, justamente porque, quando estava em confinamento, me pareceu muito triste descobrir que já estava acostumado a me confinar.

Você começou a pandemia escrevendo diários maravilhosos sobre filmes a que assistia...

Na época eu estava doente, porque peguei o vírus logo na primeira semana. Até antes da primeira semana. Tinha acabado de chegar de Los Angeles depois de ter ido ao Oscar no final de fevereiro, senti uma gripe e fiquei em casa. Três dias depois, declararam o confinamento. Os dias eram tão longos que tentei falar e escrever algo sobre a situação. Um dia fui desobediente e saí às ruas só para ver Madrid completamente deserta. É uma imagem muito impressionante que eu queria ter, então fingi que estava saindo para comprar alguma coisa só para ver a cidade.

Deve ter sido irônico fazer, no meio da pandemia, um filme no qual swabs e exames de laboratório são parte fundamental da trama, para comprovar a maternidade das meninas...

Quando estava escrevendo o filme, um ano antes, parecia ficção científica. Mas quando fizemos o filme, me pareceu muito familiar que Penélope usasse os cotonetes para fazer análise genética.

O que o interessou em fazer um filme sobre a exumação das valas comuns da Guerra Civil Espanhola?

Bom, acho que a ideia chegou até mim com maturidade em termos cinematográficos e também em termos pessoais. Faz muito tempo que quero fazer um filme sobre túmulos, coisa que, curiosamente, o cinema espanhol nunca fez. É algo verdadeiramente triste. Em 2013 ou 14, alguns pesquisadores da ONU vieram fiscalizar a situação em nosso país e ficaram muito surpresos com o fato de que a pessoa que os havia contatado para informá-los sobre a abertura das sepulturas já era a geração dos bisnetos das vítimas. Ou seja, a geração que tinha nascido na democracia. Os pesquisadores afirmam que a Espanha tem uma relação muito ruim com o seu passado. E me parece muito importante que os jovens descubram o que aconteceu naquela época, que descubram o que aconteceu com seus avós, seus pais, ainda que os problemas que os jovens tenham agora sejam outros.

Mas seu ponto de entrada nessa história vem por meio de um melodrama semelhante aos de seus outros filmes, o que acaba ocultando as intenções mais políticas do longa...

Não queria só fazer um filme sobre valas comuns. Fiz tudo por meio de uma personagem, a Janis (Cruz), que tem um legado da avó, que a salvou e a criou porque era órfã. Essa mulher está tentando abrir as valas, porque não é só uma questão de identificar, é para mostrar que elas existiram. O que Franco fez a essas pessoas ao condená-las à vala comum foi tirar toda a sua humanidade, condená-las à inexistência. Me interessei em contar essa história por meio dessa mãe, porque ela procura a verdade da memória histórica espanhola, mas ao mesmo tempo vive o dilema moral de que na sua vida não se pauta pela mesma verdade. Na vida dela existe uma grande contradição e este foi o ponto que mais me interessou, pois unia as duas verdades: a verdade pública, digamos, de nosso país e a verdade íntima dela. E é sobre essa contradição que quero falar.

Seus primeiros filmes na década de 1980 vieram depois de anos de censura na Espanha e contribuíram significativamente para um período pós-Franco de liberação nas artes. Você chegou a dizer que Franco teve de morrer para você viver. O filme Mães Paralelas foi motivado por uma nova ascensão do fascismo?

Quando comecei a fazer cinema, Franco tinha acabado de morrer. Jamais poderia ter feito um filme com Franco vivo. Achava que estávamos vacinados aqui na Espanha, por termos vivido aquela experiência horrível da guerra civil, que penso ser o pior exemplo de guerra. Eu via, cinco anos atrás, digamos, que a extrema direita estava crescendo na França, com o Trump aparecendo nos Estados Unidos, o Bolsonaro no Brasil, etc., mas pensava que a extrema direita nunca chegaria à Espanha. Às vezes penso que é o efeito Trump, que deu voz a muitos extremistas que se espalharam pelo mundo pensando: “Se esse homem diz essas coisas, não tenho motivo para não as externalizar.” Ele impulsionou todos os extremistas e ultradireitistas no Brasil, Itália, França e Espanha. Agora acontecem coisas que eram impossíveis de acontecer nos anos 1980 ou 90. Agora vemos cada vez mais ataques homofóbicos, cada vez mais xenofobia. É um sentimento muito negativo ver que todos os valores pelos quais lutamos agora precisam ser defendidos mais uma vez, com toda a força.

 TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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